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terça-feira, 21 de março de 2017

Fragilidade


Enquanto foliões se acabavam no sábado de carnaval e cinéfilos se preparavam para o Oscar, o mundo do cinema perdia Bill Paxton. Aos 61 anos, o ator que marcou a década de 1990 com True Lies, Apollo 13, Twister e Titanic sofreu complicações de uma cirurgia cardíaca e veio a falecer.

Então, senti que era o momento de realizar a vontade antiga que eu tinha de assistir sua estreia como diretor no filme Frailty, de 2001, intitulado no Brasil como A Mão do Diabo (e, curiosamente -ou não- "Pela Mão do Senhor" em Portugal).


O longa tem praticamente todos os elementos necessários para um bom suspense (ou terror?). Falta um pouco de ritmo aqui e ali, mas o filme cumpre sua função de criar tensão e apreensão, além de entreter e conseguir surpreender. O principal desafio que o roteiro traz para o diretor é a grande dependência no desempenho de atores mirins. E estes, ao contrário de outros como o de O Sexto Sentido ou os de Stranger Things, não conseguem deixar de parecer forçados e pouco espontâneos. Cabe ao próprio Bill Paxton e, sobretudo, a Matthew McConaughey entregar boas atuações e dar o tom sombrio à narrativa.

Parte do charme do filme está na sua ambiguidade, no mistério de sobrenaturalidade versus insanidade. Só que ela é explorada com pouco eficácia, pois o diretor decide tomar partido com certas decisões nas composições de algumas das cenas finais e também na forma como determina comportamentos de um personagem secundário. Todavia, a "guerra" entre os títulos nacional e português expõe também uma outra ambiguidade presente na produção, além de evidenciar que "Fragilidade", tradução literal do título original, é o mais adequado.

Seja a fragilidade da mente humana frente à manipulação ou à pressão psicológica, seja a fragilidade da dicotomia entre o bem e o mal, existem camadas mais densas sob a fragilidade de diversos aspectos do roteiro. Um bocado a mais de sutileza para tratar estes pontos teria gerado um resultado melhor, mas o que foi alcançado já é superior à grande maioria de filmes similares.

A carreira de diretor de Bill Paxton não deslanchou e ele voltou a dirigir só mais um outro filme quatro anos mais tarde, O Melhor Jogo da História, com Shia LaBeouf no elenco. Mas, como ator esteve nos subvalorizados No Limite do Amanhã e O Abutre e ainda participou de séries como Agentes da S.H.I.E.L.D., Hatfield & McCoys (pela qual foi indicado ao Emmy) e Big Love (que lhe rendeu três indicações ao Globo de Ouro). Sua ausência será sentida.


 A Mão do Diabo (Frailty), 2001




sábado, 18 de março de 2017

Mudaram as estações


Produzido por três mulheres, escrito por duas (uma assinando o roteiro, com base no livro de uma outra) e com enorme presença feminina no elenco (com Emily Blunt encabeçando, Rebecca Ferguson e Haley Bennet em papéis cruciais para a trama, e ainda com os rostos reconhecíveis de Laura Prepon, Allison Janney e Lisa Kudrow em participações menores - que talvez em outras produções seriam substituídas por personagens masculinos), A Garota no Trem passa, com muita facilidade, no Teste de Bechdel.

Tão em voga na atualidade, o empoderamento feminino não está presente só nos bastidores da produção, mas reflete fortemente também na narrativa. Estereótipos, como a alcoólatra ou a mulher objeto, são quebrados e justificados com dignos arcos dramáticos, mesmo que alguns sejam talvez até dramáticos demais. A edição colabora com esta construção, mas as atuações são o verdadeiro carro-chefe. Não há dúvidas de que Emily Blunt (junto com Amy Adams, por A Chegada, claro) deveria ter figurado entre as indicadas ao Oscar de Melhor Atriz este ano.


Só que como história de mistério, o filme não funciona bem.

Um bom whodunnit é aquele em que o espectador tem a oportunidade de desvendar a trama junto com os personagens enquanto as dicas e pistas vão surgindo ao longo da história. Os melhores do gênero são aqueles que, quando o desfecho é revelado, a plateia é pega de surpresa e não se conforma de não ter ligado os pontos corretamente.

O primeiro erro de A Garota no Trem é demorar a chegar no grande mistério. Enquanto há o ganho com desenvolvimento de personagens, há perda no engajamento com o público. A estrutura de saltos temporais poderia ter sido explorada também para apresentar o crime mais cedo. O segundo, e pior, erro é que não há pistas verdadeiras, não há a opção do espectador participar. Quando, faltando meia hora para o fim do filme, surge a primeira revelação, o mistério se desmorona, a charada deixa de existir e tudo se arrasta até um desfecho padrão.

O diretor Tate Taylor se esforça para compensar essas falhas com a busca de um estilo próprio (que tem como exemplo uma interessante, mesmo que não inédita, tomada em que duas personagens dialogam em frente ao espelho, sem a câmera aparecer no reflexo). Mas, considerando que o livro foi um sucesso de vendas é de se acreditar que algo muito significativo se perdeu durante o processo de adaptação. Seria necessário ler a obra original para tentar entender. O problema é que após o filme se instaura o desinteresse em revisitar a história.


A Garota no Trem (The Girl on the Train), 2016




quarta-feira, 8 de março de 2017

Mulheres


Neste Dia Internacional da Mulher, um momento para relembrar o Teste de Bechdel:


Claro que existem filmaços que não deixam de ser excelentes só porque não passam no teste, e a solução não é forçar um roteiro só para atender às regras básicas. Mas, vale uma reflexão geral sobre o cinema da atualidade.

sábado, 4 de março de 2017

Um por todos


Tema de um livro de 1967, uma H.Q. de 1994 e um documentário de 2004, a história do soldado americano Desmond Doss não era algo totalmente desconhecido para os interessados pela II Guerra Mundial. Mas, para a maior parte do público, foi necessária uma produção hollywoodiana para que o médico de combate se tornasse mundialmente famoso. Até o Último Homem, que marca a volta de Mel Gibson à cadeira de diretor depois de dez anos (e de muitas polêmicas), tem a tarefa nada fácil de narrar as passagens deste verdadeiro herói. Nada fácil porque os feitos reais de Desmond parecem ser invencionices  de um roteiro exagerado e irrealista.

O fato de um combatente ter ido para o exército, e posteriormente para a Guerra (não é spoiler, dado que o filme -infelizmente- começa numa batalha campal para entrar em modo flashback), com a convicção religiosa de não matar e nem sequer pegar em armas, já é algo inusitado por si só. Desmond não foi o único objetor de consciência daquela guerra, claro, mas talvez tenha sido o que tomou ações de maior impacto.


Muitas vezes a escolha da composição da cena, em conjunto com a trilha sonora demasiadamente típica, parecem enfatizar desnecessariamente a presença e as decisões do protagonista. Durante a projeção, não há como não reagir com descrença ou desdém em determinadas situações criadas por Mel Gibson.  Até que, ao sair do cinema pensando que aquele filme de guerra poderia ser mais verossímil, uma pesquisa básica pela internet leva à descoberta de que, tirando algumas anacronias e detalhes da vida pessoal de Desmond, praticamente tudo aquilo aconteceu de fato. E, não só isso, o diretor e roteiristas decidiram atenuar ou até mesmo retirar o alguns acontecimentos.

Existem relatos de um soldado japonês que teve Desmond sob sua mira algumas vezes enquanto ele descia os soldados pela corda, mas sua arma emperrou todas as vezes em que tentou atirar. A própria sequência final na vida real foi mais heroica e dramática (talvez até piegas) que a retratada no filme. Depois de levar o impacto da explosão de uma granada para salvar seus companheiros, Desmond, com pedaços de estilhaço no corpo, esperou durante 5 horas até ser encontrado. Ele foi carregado em uma maca, sob forte ataque de tanques inimigos. Ao ver um outro soldado severamente ferido, rolou para fora da maca e rastejou para ajudar o homem. Então, cedeu seu lugar e enquanto esperava o retorno dos companheiros levou um tiro no braço. Improvisou uma tala e rastejou cerca de 300m sob fogo cruzado até um local seguro.

Ao contrário da grande maioria das cinebiografias, Até O Último Homem é um caso raro em que quando mais se sabe sobre o assunto e a pessoa em foco, mais se aprecia a obra e mais toleráveis ficam suas falhas.


Até o Último Homem (Hacksaw Ridge), 2016




quarta-feira, 1 de março de 2017

Limitado


Por ser um pouco longo demais e de ritmo lento, pode se tornar uma tarefa árdua assistir Um Limite Entre Nós tarde da noite ou quando se está cansado demais. Mas, em outras circunstâncias, vale a pena conferi-lo. Pelas atuações.

Vale ver os coadjuvantes, sobretudo Viola Davis, que acaba de vencer um Oscar pelo papel, e Mykelti Williamson, com um personagem que de certa forma mata um pouco a saudade de sua cria mais memorável: Benjamin Buford "Bubba" Blue, de Forrest Gump: O Contador de Histórias. E, claro, vale ver Denzel Washington, cujo desempenho poderia ter lhe rendido seu terceiro Oscar (mas, francamente, a Academia acertou nesta categoria este ano).


Embora sua interpretação seja intensa e haja uma naturalidade ímpar na composição do personagem, é decepcionante que ele se torne cada vez mais antipático, chegando ao detestável, à medida que a história se desenvolve. Os minutos iniciais e o cartaz do filme enganam. E o roteiro ainda leva a um infeliz epílogo que tenta passar uma mensagem no pior estilo "mas ele tinha boas intenções, fez o melhor dentro do que sabia fazer."

Outro ponto baixo na produção é também Denzel Washington - o diretor, que não consegue extrapolar os limites da mídia da qual o filme é adaptado: uma peça teatral. Diferentemente de outras adaptações dos palcos, como Moonlight: Sob a Luz do Luar ou Cavalo de Guerra, por exemplo, Um Limite Entre Nós se mantém restrito a cenários limitadíssimos e não explora recursos cinematográficos como composições visuais ou momentos de silêncio e contemplação. Tudo é muito falado, o tempo todo, se aproximando perigosamente do verborrágico.

Faltou um pouco do velho "Mostre, não diga". E enquanto o protagonista se preocupava em construir a cerca, o diretor deveria ter se preocupado em romper a cerca que separa a casa -o teatro- do mundo -o cinema.


Um Limite Entre Nós (Fences), 2016