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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Só a forma é pouco


Abrindo com “Aconteceu muito tempo atrás... no reino de uma princesa sem voz...  uma história de amor e perda... e do monstro que tentou destruir tudo” ao som de uma bela e bem típica trilha sonora, o cineasta Guillermo del Toro de cara estabelece uma natureza fabulosa para seu já aclamado e premiado A Forma da Água. Tido como uma mistura de fantasia e romance, a história sobre uma mulher muda que se envolve com um ser (o Homem-Anfíbio, segundo os créditos), que está preso no laboratório secreto no qual faz faxina, é muito mais fantasia que romance. Embora acredite piamente que não.

Construído de forma meticulosa, repleto de detalhes e tecnicamente deslumbrante (com direção de arte, cenografia, maquiagem, efeitos visuais e fotografia incontestáveis) o filme fraqueja no roteiro. E no romance. As atuações marcantes do elenco principal disfarçam, mas não apagam, a faceta unidimensional dos personagens, desde a protagonista deficiente até o antagonista sádico. E não consertam o modo corriqueiro e artificial com que o vínculo entre a mulher e a criatura é criado. Se o público não consegue simpatizar com um relacionamento desses, o filme vai (perdão do trocadilho) por água abaixo. E, ao contrário de incontáveis outras produções que já cativaram com o laço entre humano e criatura, A Forma demanda muito do espectador.


Isto se dá, principalmente, porque del Toro não está preocupado com romance. Desde os primeiros minutos, fica bem claro que a protagonista, no marasmo de seu dia-a-dia, não é carente de afetividade, mas sim de sexo. Ouvir música, bater um papo em linguagem de sinais, matar o tempo em boa companhia e... compartilhar ovos cozidos, isto tudo ela pode fazer (e já faz) todos os dias com o seu vizinho, gay dentro do armário. O ápice de seu relacionamento com o homem-anfíbio é “partir pros finalmentes” na primeira oportunidade. (Lá vem spoiler até o fim do parágrafo) Apesar de estampar o pôster do filme, o beijo do amor verdadeiro -com, vejam só, uma mistura do improvável de A Bela e Fera, a salvação de A Branca de Neve, a transformação “sou parte do seu mundo” de A Pequena Sereia e até o sapatinho caindo de Cinderela- só se dá nos segundos finais e já ofuscado por sessões de coito interespécies. Caso se esforçasse para construir um vínculo mais verossímil e tangível, o filme conquistaria um público maior. 

E não é o caso de pedir ao roteiro para procurar saídas fáceis com o objetivo de direcionar as emoções do espectador. Porque isso ele faz, em mais de uma situação, como a do atendente de restaurante que, após rejeitar uma investida do personagem homossexual, não somente se mostra homofóbico, mas também racista, contra um casal de negros que oportunamente acaba de entrar no estabelecimento. Uma escolha nada sutil, a exemplo das inúmeras que acercam o vilão vivido por Michael Shannon.

A forma de A Forma demonstra que del Toro continua um diretor com uma criatividade visual singular. E quase esconde sua deficiência na criação de histórias.


A Forma da Água (The Shape of Water), 2017




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