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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Androides: de onde vêm, para aonde vão?


Eu assisti à versão original de Blade Runner – O Caçador de Androides (a mesma que foi para o cinema em 1982) em VHS lá pelo fim da década de 1980. Nos meados anos 1990, tive a oportunidade de ver a de 1992, subtitulada  ‘Versão do Diretor’e sem a narração, o “final feliz” e com algumas inserções (como a  ambígua e desnecessária insinuação de que Rick Deckard pudesse ser um replicante). Por fim, para me preparar para Blade Runner 2049, semanas atrás vi a ‘Versão Final’, de 2007– o que se mostrou uma decisão acertada, já que, apesar de ter sido vendido como uma história quase que independente, o novo filme é na verdade uma continuação que recorre a muitos detalhes do primeiro.

Blade Runner 2049 é um filme que não deve em nada ao seu antecessor e, em alguns aspectos, é até melhor.


Dito isso, um pouco de polêmica. Estar à altura já é de fato um elogio, haja visto o merecido status de cult que o filme de Ridley Scott conquistou ao longo dos anos, após fracassar nas bilheterias. Não há como negar as qualidades técnicas, a criatividade e a singularidade por trás da produção original. Porém, se analisado friamente, trata-se de um enredo muito simples e básico. Claro que todos acabam se lembrando do icônico e belo monólogo das “lágrimas na chuva” que o replicante Roy Batty entrega ao final da sua jornada, mas é um momento que, francamente, o personagem e o filme não fizeram por merecer. O Roy de Hutger Hauer não dá nenhum indício daquele comportamento ao longo da projeção e, momentos antes, está perseguindo Deckard como se fosse um predador irracional, literalmente uivando. A mudança para um cara introspectivo e filosófico vem “do nada” (pra melhor, claro), tentando dar ao filme um tom mais intelectual aos temas que já vinham sendo explorados minimamente: origem da vida, longevidade, morte.

Mesmo sem uma cena tão marcante quanto à de Roy e Deckard no telhado, 2049 acerta em manter o ritmo, o visual e o tom daquele universo. E não só perpetua o debate existencialista, mas também o expande ao acrescentar algumas novidades que acabam sendo a força-motriz deste novo enredo. Evitarei spoilers, mas fica o aviso que a principal novidade vai demandar um pouco de suspensão de descrença por parte do espectador. Outras comentarei: talvez até para manter a dúvida sobre a origem de Deckard (que quase é esclarecida aqui, só para numa frase seguinte ser desconstruída de novo), agora aprendemos que alguns replicantes não só viveram mais do que estavam programados, como também envelheceram. Aquela polarização que existia (replicantes são perfeitos e humanos não) que refletia até nos animais (pragas urbanas, como pombos, eram reais e animais exóticos eram fabricados), perde-se aqui. Há replicantes que possuem deficiências físicas, imperfeições metafóricas que os tornam mais humanos. Pra pior, se os porcos de George Orwell forem parâmetro.

A esperada (e essencial) aparição de Harrison Ford acontece tardiamente, só lá para depois de uma hora e meia de filme. Mas, sem prejuízo, pois as “adições” ao elenco vão se sustentando muito bem até lá. A própria participação de Edward James Olmos, em uma curta reprise de seu papel original, é gratuita e não acrescenta nada (a não ser nostalgia). Mas, o grande astro é mesmo o diretor Denis Villeneuve que, depois de entregar o melhor filme do ano passado, aproveita da experiência do diretor de fotografia Roger Deakins para provar que está afiadíssimo no seu jogo. Ele apenas escorrega ao acrescentar irritantes recursos que são mais típicos de novela da Globo: voice-overs com diálogos que aconteceram minutos antes e flashbacks de cenas que ainda estavam frescas na cabeça do espectador. De repente daqui uns cinco anos eles são retirados em uma ‘Versão do Editor’.

Uma ficção-científica moderna com estilo clássico, é pouco provável que 2049 atinja a mesma relevância cultural que O Caçador de Androides. Mas, por comparação, merecia.


Blade Runner 2049 (Blade Runner 2049)

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