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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Kubo mágico


Base dos primórdios do cinema, especialmente com George Meliés, e essência dos efeitos especiais nos anos 1950 e 60, tendo como grande mestre Ray Harryhausen, as animações stop-motion (de manipulação quadro a quadro de bonecos, objetos, massinhas) ainda encantam. Em um cenário em que é muito mais rápido e barato recorrer à computação gráfica, ainda existem os que se empenham nesta arte, como Tim Burton (O Estranho Mundo de Jack, A Noiva Cadáver, Frankenweenie) e os estúdios Aardman (Wallace e Gromit, Fuga da Galinhas,  Piratas Pirados!) e Laika. A mais recente empreitada deste último é o belo Kubo e As Cordas Mágicas.


Os responsáveis por Coraline e o Mundo Secreto finalmente emplacam uma história memorável, algo que infelizmente não alcançaram com ParaNorman ou Os Boxtrolls, por mais que tenham sido tecnicamente impecáveis. Não que Kubo não tenha problemas narrativos, pelo contrário, o desenrolar da trama é numa estrutura simples, similar à dos games (desafio - desafio - desafio - confronto com o chefão), e poucos personagens, embora interessantes, fogem do óbvio. Mas, é garantido que a original e cativante história do menininho samurai será muito mais lembrada que a dos monstrengos empacotados ou que a do menininho que consegue ver os mortos (a animação, claro, não aquele outro com o Bruce Willis).

Porém, talvez o grande revés do filme seja ironicamente sua maior proeza. Ao criar uma produção tecnicamente precisa, com cenas verdadeiramente mágicas e visual arrebatador, a graça da natureza rudimentar do stop-motion se perde um pouco com os retoques e as inserções dos efeitos digitais de ponta (o que deve render uma inédita - e ambígua, mas merecida - dobradinha de indicação ao Oscar de Animação e de Efeitos Visuais).

De qualquer forma, Kubo e As Cordas Mágicas é um espetáculo digno de ser admirado. Mas, não pelos menorezinhos. O tema principal é a morte e, mesmo tratado de forma esperançosa e com uma mensagem final de certa forma feliz, existem algumas cenas e personagens um pouco assustadores. Somado a isto, o protagonista é um menino que tem uma vida sofrida e nada adequada para sua idade. É de fato um sofrimento maquiado para filme infantil, mas não havia necessidade da Laika colocar tanta amargura na vida dele, principalmente desmantelando em vários aspectos o porto de seguro de qualquer criança: sua família e parentes.

Enfim, os créditos finais se desenrolam em uma linda versão de While My Guitar Gently Weeps (que tem tudo a ver com o filme), então todos os problemas com a produção são esquecidos e só as boas lembranças ficam. Que, como ensinado, é o que importa.


Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings), 2016




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