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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cinco voltaram, mudados


A escalação é de endoidar qualquer cinéfilo.

De um "lado", cinco grandes diretores clássicos: John Ford (No Tempo das Diligências, Vinhas da Ira, Rastros de Ódio); William Wyler (Os Melhores Anos de Nossas Vidas, A Princesa e o Plebeu, Ben-Hur);  John Huston (O Falcão Maltês, O Tesouro da Sierra Madre, Moby Dick); Frank Capra (Aconteceu Naquela Noite, A Mulher Faz o Homem, A Felicidade Não Se Compra); e George Stevens (Os Brutos Também Amam, Assim Caminha a Humanidade, O Diário de Anne Frank).

De outro, cinco renomados cineastas da atualidade: Paul Greengrass (O Ultimato Bourne, A Supremacia Bourne); Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno, Círculo de Fogo); Lawrence Kasdan (roteirista de O Império Contra-Ataca, Caçadores da Arca Perdida); Francis Ford Coppola (trilogia O Poderoso Chefão, Apocalypse Now); e Steven Spielberg (sério, precisa??).


A minissérie documental da Netflix, Five Came Back, traz Spielberg & cia dando seus depoimentos sobre as obras e feitos de Ford & cia, da época em que essas cinco figuras então já respeitadas em Hollywood se alistaram para participar e registrar de perto a II Guerra Mundial. Um alinhamento astral em torno de um tema ainda rico em histórias e que tem como cereja no topo do bolo Meryl Streep como narradora, que (claro, né?) ganhou um Emmy de Melhor Narração este ano por este trabalho.

Desde a sequência de abertura, que não deve nada às demais séries de ficção de hoje em dia e conta com um tema musical emblemático de Thomas Newman, é possível perceber que houve o devido investimento e o devido cuidado que o material merecia. É visível a paixão, mesmo que existam desapontamentos, nas falas dos cineastas atuais para com seus antecessores, em uma mesma proporção com que havia paixão e desapontamentos daqueles para com Hollywood e a guerra em si.

Utilizando bastantes imagens de bastidores e cenas dos próprios documentários produzidos à época pelos cineastas (muitos deles também disponíveis atualmente na Netflix), Five Came Back é, em mesma escala, um presente tanto para amantes dos cinema, quanto para interessados pela história da II Guerra. É possível que os menos interessados em um dos dois temas se sinta um pouco perdido no 'quem era quem' de Hollywood ou na relevância do contexto da II Guerra em cada situação, mas mesmo assim a série consegue ser acessível, sem ser didática.

Após três envolventes capítulos, com toda glamourização e todos horrores que uma guerra pode trazer, o espectador termina com uma visão mais clara sobre a influência do cinema na II Guerra e a influência da II Guerra no cinema.


Five Came Back (Netflix), 2017




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Maravilha, DC


Em um filme que nem era dela, Batman V Superman: A Origem da Justiça, ela já se destacou. Como contraponto ao Superman amargurado, que desde Homem de Aço parece pouco se importar com os homens, a Mulher Maravilha dessa geração surge muito parecida com o Superman do Christopher Reeve: idealista, por vezes inocente e, principalmente, uma heroína nata, convicta na missão de salvar a humanidade, mesmo que ela não mereça.

Em seu longa-metragem solo, a personagem Diana (que curiosamente nunca é referida como Mulher Maravilha) é sustentada pelo carisma, pela confiança e, claro, pela beleza de Gal Gadot. Seu companheiro em tela, Chris Pine, traz charme e bom-mocismo na medida certa, e a química perfeita entre os dois rende momentos divertidos e tenros. A produção transpira empoderamento feminino e a diretora Patty Jenkins conduz cenas de ação memoráveis de tirar o fôlego.


Os problemas estão no roteiro, escrito por homens, óbvio.

A dinâmica do envelhecimento da heroína não fica clara. Ela para de envelhecer em certa idade? Ou ela envelhece muuuuuuito devagar e foram séculos que se passaram em Themyscira? E qual o motivo daquele mistério em torno das origens de Diana? Por que sua mãe não conta a verdade logo quando a filha vai embarcar em uma jornada "talvez sem volta"? Ela espera que o vilão explique tudo para Diana no momento de maior perigo de sua vida??

A própria reviravolta em torno do vilão não é nada surpreendente e se desenrola em meio a vários clichês do gênero. Aliás (SPOILERS a seguir), teria sido muito mais interessante se Ares não fosse uma só pessoa, mas várias, ou melhor ainda, uma espécie de entidade não física, uma manifestação coletiva, difícil de se combater - o que justificaria a eterna luta da Mulher Maravilha na terra dos homens. Afinal, onde ela estava durante a II Guerra Mundial? Tirando poeira de múmia no Louvre enquanto esperava ser chamada para Liga da Justiça nos anos 2010?? (E, pior, onde estava o Deus da Guerra??)

Mas, francamente, pouco importa... Só o fato do universo da DC nos cinemas ter finalmente entregue um filme com genuíno espírito de super-herói já ameniza os erros dos homens.


Mulher-Maravilha (Wonder Woman), 2017





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ainda a melhor do Brasil


Gilberto Gil
Ricky Martin
João Bosco
Raimundos
Eduardo Dussek
Rita Pavone
Genival Lacerda
The Police
Rita Lee
The B-52’s
Jane e Herondy

Um junta-junta bizarro?

Não, eclético: segundo volume do projeto mais inusitado da melhor (e invariavelmente criativa) banda do país.


Chegou Música de Brinquedo 2!

Pato Fu 25 anos.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Na lista negra


A premissa de Death Note é instigante: e se um ser humano ficasse de posse do caderno de uma entidade da Morte, no qual as pessoas cujos nomes fossem escritos em suas páginas seriam mortas? Porém, o que poderia ser uma engajada e sombria discussão sobre moral e poder, na verdade é um filme policial bobinho com toques de terror. Não li nem assisti aos cultuados mangás/ animes/ filmes japoneses que precederam esta adaptação americana bancada pela Netflix, mas consigo pressentir que os fãs dos originais devem estar decepcionados.

O filme passa correndo por seus temas, apresentando mortes gráficas (que parecem saídas diretamente da franquia Premonição), até uma correria literal – uma perseguição a pé no terceiro ato que logo se torna repetitiva e que culmina em um diálogo que só serve para “entregar” o protagonista no desfecho da história. Muita coisa parece cair do céu, como o próprio caderno da morte, e fica a nítida impressão de que o roteiro não soube alocar no tempo restrito de um longa-metragem tudo o que queria trazer à mesa.


Qual é a de Ryuk e as maçãs? Qual é a de L e os doces? Qual é a de Watari e o papo do sono? Qual é a da antiga sociedade secreta que transformava órfãos em ultrasherlockholmeses modernos? As ações de Kira, que deveriam dar o devido peso à história, são resumidas em uma montagem que não deixa transparecer seu escopo nem a passagem de tempo. As próprias regras de uso do caderno (e parece haver dezenas delas)  vão surgindo e sendo pinceladas por conveniência.

O ator principal, que prova ser fraco desde seus primeiros gritos histéricos forçados após encontrar com Ryuk (este com aspecto realmente assustador e bom trabalho de voz de William Dafoe), não traz credibilidade nem ao romance central, reforçado pela falta de química com a parceira de cena. Ambos protagonizam uma das trocas de “eu te amo” mais chochas da história do cinem... ehrrr... das produções originais de provedores de streaming.

O diretor Adam Wingard até emprega um estilo interessante e acerta em várias composições visuais, mas não consegue ajustar o tom de sua obra. Um reflexo disto é a incompreensível inclusão de imagens de bastidores nos créditos finais. Como em uma comédia, ali também estão pequenos erros de gravação. Isso porque os maiores erros de gravação já vinham sendo apresentados ao longo dos 100 minutos anteriores.


Death Note (Death Note), 2017




sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Volume 2 do Vol. 2


Mais de uma pessoa (e duas já são muito aqui pra este blog, rsrs) me questionaram porque eu praticamente só escrevi coisa boa sobre Guardiões da Galáxia Vol. 2, mas dei "apenas" 3,5 como nota. Bom, antes de mais nada, esclareço que 3,5 já é mais que "bom". Agora, o lance é que os pontos negativos estavam basicamente inseridos em contexto de spoilers e eu tento evita-los ao escrever.

Mas, já que insistem, vamos lá...

(A partir de agora, alerta: SPOILERS para o filme)


O primeiro ponto que me incomodou foi influenciado por uma questão pessoal, de momento. Sei que não é profissional deixar situações externas alterarem a percepção e, ultimamente, a análise da obra, mas... eu não sou profissional do assunto. Rsrsrs.

Eu já tinha exposto no post original que o drama do filme se baseava "principalmente em defender que pais são péssimos". Eu assisti ao filme poucos dias após o dia dos pais, em uma semana em que eu estava longe dos meus filhos, a trabalho. Guardiões 2 tem (ou menciona) apenas dois pais -Ego e Thanos- e ambos são simplesmente os piores pais do mundo. Da galáxia, quer dizer. Não funcionou pra mim. Pais e filhos por aí mereciam um pouquinho mais.

Os outros pontos giram em torno do vilão Ego.

Para começar, ele surge em um momento muito oportuno, como uma demanda de roteiro e não algo lógico na trama. Por que ele não surgiu no momento crítico ao final do Guardiões "Vol.1", por exemplo? (A resposta é porque Kurt Russel não estava contratado e nem sabiam que o filme ia fazer sucesso e ter uma continuação).

Ele se diz uma Divindade (ou algo assim) e estava procurando por Peter Quill há muito tempo. Esse cara ia sofrer com Onde Está Wally?. No Guardiões "Vol.1", o Senhor das Estrelas era mega-conhecido e procurado, até deu entrada oficial em presídio intergaláctico e tudo mais.

Toda aquela cena de Ego explicando o passado para Peter através de uma espécie de museu de cera animado é bem ruim. Desnecessariamente expositiva e sem sentido dentro da realidade da história. E o fato de ele ter causado a morte da mãe de Peter, e como causou, não foi um artifício de bom gosto para "vilanizá-lo" .

Por fim, a sequência final do filme expõe claramente como que os realizadores não estavam preparados para lidar com o escopo que prepararam: o indivíduo É o planeta em que os personagens estão e, só para citar um exemplo, precisa de criar tentáculos para lutar contra eles??

Taí. 3,5 padecinhos tá justo, sim.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

É melhor guardar do que vingar


A cena de abertura de Guardiões da Galáxia, com o protagonista em uma missão num planeta desconhecido dançando ao som dos anos 80, servia para já avisar: mesmo sob a marca da Marvel, aquele era um filme com espírito e estilo bem diferentes dos filmes de heróis até então. Grata surpresa, na verdade nem era um filme de super-heróis: estava muito mais para uma aventura espacial recheada de humor. Mesmo tendo se passado só três anos de lá pra cá, quem o assistiu só uma vez pode simplesmente ter se esquecido do clima diferenciado criado pelo diretor-roteirista James Gunn. Mas, Guardiões da Galáxia Vol. 2 apresenta, novamente, uma abertura que já joga o espectador na sintonia correta.


A sequência dos créditos iniciais desta continuação, que também traz um protagonista dançando ao som dos anos 80 durante uma missão num planeta desconhecido, é tão inventiva, divertida e cativante que chega a deixar a plateia até preocupada com o restante do filme – não tem como manter este ritmo e ser tão bom assim por mais duas horas. Mas, Guardiões 2 não deixa cair o nível da ação e da descontração durante toda sua duração. É impossível não gargalhar várias vezes, sozinho ou junto com Drax.

A produção também consegue investir no drama, proporcionando uma faceta emocional inesperada e bem-vinda, mesmo que se baseie principalmente em defender que pais são péssimos e que é melhor fazer dos amigos a família. Causa estranheza também que a dose de violência esteja um pouco acima dos padrões Disney-Marvel e, talvez, no limite da indicação etária. A recompensa é que as cenas mais intensas são criadas com imagens “quadrinhescas” com uma estética de se admirar.

O ponto extra para Guardiões é ter se sustentando até aqui sem as muletas do Universo Cinematográfico da Marvel. Há espaço (sideral) de sobra (e as várias pequenas pontas abertas no final são indícios disto) para que seus personagens principais e secundários continuem sendo desenvolvidos sem a necessidade de participações de Homem de Ferro & cia. Fica a torcida para que a confirmação da presença de Peter Quill e sua gangue no próximo filme dos Vingadores não force atos recíprocos para Guardiões Vol. 3.


Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy, Vol. 2)




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Avalanchezinha


Se não fosse pelo burburinho que causou no festival de Sundance, talvez Operação Avalanche não teria entrado no meu radar. Se não fosse pelo tema, a suposta encenação em estúdio da chegada do homem à Lua, talvez eu não o teria assistido. E talvez teria sido melhor assim.

O primeiro problema desta produção independente é o estilo: câmera na mão. Ainda não consigo deixar de ficar (mesmo que ligeiramente) nauseado com este desnecessário formato. Neste caso, ele poderia até ser justificável já que o filme se posa como um documentário perdido da época do programa Apollo. Mas, como todos sabem que ele é falso, filmá-lo assim pouco contribui e só faz evidenciar de que trata-se de um filme barato (sem conotações pejorativas). Sua artificialidade se dá não somente por ser notório que os atores são contemporâneos nossos, mas também porque já está muito fora de moda duvidar de que o homem foi à Lua. (Se ainda há algum pingo de vontade de abraçar teorias da conspiração, recomendo o curto e ótimo episódio 199 do Nerdologia no YouTube).


Falando em atores, eles são a raiz do segundo problema. Matt Johnson pode ser um bom diretor, mas como ator é só irritante. Os protagonistas eram para ser uma dupla de agentes da CIA infiltrados na NASA se passando por estudantes de cinema. Mas, mesmo fora do disfarce eles parecem o tempo todo ser o que são na vida real: estudantes de cinema. Ninguém ali convence e a jornada parece existir só para se apreciar um bom trabalho amador. Se os realizadores fossem da família, ou amigos íntimos, seria uma experiência excelente, mas a obra exposta para o mundo pouco tem a agregar.

Apesar do roteiro fraco, que para um pseudo-documentário traz pouca lógica e coerência, há o que se apreciar no filme, especialmente nas passagens envolvendo o cineasta Stanley Kubrick à la Forrest Gump. Mas, no fim das contas é somente mesmo uma ótima ideia executada com boas intenções. E sabe o que dizem por aí sobre boas intenções, né?


Operação Avalanche (Operation Avalanche), 2016




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Saul que há de melhor


Continuo sendo o (desacreditado) cara que se diz fã de cinema e que nunca viu Breaking Bad. O problema é que perdi o zeitgeist da série protagonizada pelo famoso Walter White e acabei traçando uma meta: assistir ao seu spin-off, Better Call Saul, só para ver se funcionaria independentemente.

E já no começo da primeira temporada descobri que sim.

Agora, se tudo que foi demonstrado até a conclusão da terceira e mais recente temporada for algum indício, cada vez aumenta mais a sensação de que todo mundo com quem converso está certo e estou perdendo uma das melhores séries de todos os tempos ao evitar Breaking Bad. Porque Better Call Saul, um "mero derivado", já é uma das melhores séries de todos os tempos.


Como escrevi após o quinto episódio ainda da primeira temporada, "o grande trunfo aqui é o desenvolvimento de um personagem agridoce, ambíguo e divertido. Um advogado inteligente, mas que não deixa de fazer bobagens homéricas e que mesmo arquitetando golpes e trambiques ainda tem um senso moral nato, tentando racionalizar seus atos para se convencer de que faz a coisa certa."

Porém, não é só Bob Odenkirk quem brilha como o personagem-título (ou quase lá). Todo o elenco coadjuvante  merece aplausos e, sem entregar muito, os roteiristas dão aos seus personagens dimensões substanciais e verossímeis. De Mike, Kim e Chuck, passando por Howard e Francesca, até Nacho, Hector e Gus, todos protagonizam momentos tensos, engraçados, sensíveis e memoráveis dignos de protagonistas. E os personagens que são recorrentes de Breaking Bad quando roubam a cena não o fazem por serem rostos conhecidos (pois pra mim não são), mas sim por estarem servindo a um enredo engenhoso que se dá o tempo necessário para ser bem desenvolvido. Isso tudo confeccionado com uma fotografia belíssima, uma edição habilidosa e direção(ões) de altíssimo nível. É também notável como que é entregue um conteúdo maduro de qualidade, sem a necessidade de se recorrer a palavrões, nudez, sexo ou violência explícita.

A verdade é que Better Call Saul  me deixa num conflito entre perseverar ou abandonar o experimento social-artístico. O que será que Jimmy McGill aconselharia?


Better Call Saul (3a. temporada), 2017




terça-feira, 8 de agosto de 2017

Só com favas e um bom Chianti


Não que isso faça diferença alguma para ele -ou para o mundo- e nem que isso diminua seu magnífico trabalho, mas... não sei mais o que pensar de Sir. Anthony Hopkins.


Alguns trechos da entrevista que concedeu à revista Preview de Julho/17 (Ed. 94) em ocasião do lançamento do seu filme mais recente... ehrrr... Transformers: O Último Cavaleiro:

(...)

O que o senhor gosta neste filme e nesta franquia?
Eu só gosto de trabalhar. É isso.

Mas esse é o tipo de produção que o atrai?
Não, é apenas um filme bom e divertido que resolvi fazer.

(...)

Acha que tem algum filme que todos deveriam ver?
Oh, Deus, eu não sei. Eu não sei. Eu não tenho nenhum interesse neles, realmente.

O senhor assiste a filmes frequentemente ou séries de TV?
Não.

Mas assiste aos filmes e seriados em que trabalha?
Não. Se eu fiz, está feito e acabou.

Gosta de ir ao cinema?
Não. Só assisto na televisão a clássicos e filmes antigos.

Quem foi o melhor diretor com quem trabalhou?
Acho que Michael Bay é um dos melhores junto com Spielberg e Oliver Stone.

(...)

Ele tem 80 anos de idade, 50 de carreira. Quem sou eu pra pensar qualquer coisa...

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Wolverine cansado (e cansativo)


Quase não assisti a Logan.

Após o fraco X-Men: O Confronto Final ainda arrisquei o péssimo X-Men Origens: Wolverine antes de abandonar os heróis mutantes. Mesmo com as boas recomendações de Primeira Classe e Dias de um Futuro Esquecido, não animei de retomar a franquia. Então surgiu a aclamação de público e crítica a Logan e ficou a sensação de que eu poderia estar perdendo algo especial.

Por ser em teoria um filme solo que não dependia diretamente dos que vieram antes, resolvi assistir. E descobri que não estava perdendo nada especial.


A exemplo do recente e também superestimado Deadpool, a comoção e a expectativa em torno de Logan pareciam se sustentar no fato de que a dobradinha Fox-Marvel estava lançando (mais) um filme de super-herói direcionado para adultos. O problema é que o filme parece fazer questão de usar isso como ferramenta de promoção e não por demanda de desenvolvimento narrativo.  Abrindo de cara com um Wolverine exclamando "f**k" e tendo uma cena em que uma moça gratuitamente mostra seus seios para o herói, o longa parece um amontoado de artifícios para gritar "vejam como sou um filme diferente!".

Se a surpresa da violência exacerbada por um momento traz um senso de "tudo pode acontecer", rapidamente ela se torna previsível virando um "tudo vai acontecer". E a produção se transforma em um exercício de paciência, uma espera pelo esperado.

Hugh Jackman e Patrick Stewart, que não contribuíram com suas declarações de antes do lançamento do filme sobre seus envolvimentos futuros com a franquia, até fazem um bom trabalho,  juntamente com a surpreendente novata Dafne Keen. O diretor James Mangold acerta no clima de faroeste, mas erra ao escancarar suas influências com uma cena em que personagens assistem a Os Brutos Também Amam, que acaba sendo referenciado mais para o final, com pouquíssimo efeito dramático.

Logan poderia até ter sido um filme melhor, se não ficasse ocupado em pontuar que possui crianças assassinas e que Wolverine fala, sim, palavrões e tem o costume de repetidamente usar suas garras para atravessar os crânios dos vilões. De certa forma é um alívio que o filme ganhe classificação de censura como inadequado para menores, não somente pelos motivos óbvios, mas principalmente por seu cenário soturno, onde os X-Men estão mortos (aparentemente por decorrência de uma doença mental do próprio Professor X) e os heróis remanescentes estão decadentes e sequer conseguem salvar e se importar com uma família que os acolhe.

No mundo atual, já suficientemente amargurado, não é nada disso que queremos de um filme de herói.


Logan (Logan),2017




sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sem escape


A vinheta que exalta as qualidades e faz a propaganda da única sala IMAX de BH termina com um aviso: “IMAX, não se contente com menos”. Para Dunkirk, o novo filme do diretor-roteirista Christopher Nolan, a afirmação é mais que verdadeira.

Desde a simples primeira cena, com soldados sob uma chuva de folhetos propagandistas, até às últimas e memoráveis imagens, absolutamente tudo no longa-metragem é magnífico de se ver (mesmo que os horrores da II Guerra estejam sendo retratados). A fotografia é simplesmente deslumbrante e a tela gigante coloca o espectador em uma experiência imersiva sem precedentes. A produção de som contribui fortemente e, também, desde o primeiro tiro a plateia já sente o desconforto da guerra, atenuado pela excelente e enervante trilha sonora de Hans Zimmer. Cansaço físico e a sensação de não ter visto um filme, mas sim ter sobrevivido a ele, podem ser reações comuns após o término da projeção.


Quem ficou imaginando “o que diabos Christopher Nolan tem para acrescentar em meio a tantos filmes de II Guerra?” terá a resposta não somente no visual arrebatador, mas também em outra característica do cineasta: a estrutura narrativa não-linear. Três pontos de vista de um mesmo episódio histórico são contados em três passagens de tempo distintas, que acabam se interpondo. Mas, esta edição que é um dos charmes da produção pode também deixar parte dos espectadores um pouco confusos.

É um dos riscos que Nolan assume, em favor de criar praticamente uma sensação em vez de mais uma história básica de batalha campal. Aliás, pode ser apontado que há pouca história no filme e, de fato, o mesmo parece uma longa cena esticada para esmiuçar todos os seus detalhes. O que não o torna menos profundo.

A emoção está à flor da pele e mesmo com poucos diálogos e sem exposição dá para acompanhar e entender as ações e motivações dos personagens. É verdade que leva um tempo para que seja criada uma conexão afetiva com os mesmos, e provavelmente não será possível lembrar seus nomes terminada a sessão, mas no final fica uma ponta de honra de ter lutado junto com eles.

Não que o filme levante a bandeira pró-guerra. O peso da perda é grande, ainda que não haja sanguinolência e desmembramentos como em outras produções. É com sutilezas em determinadas cenas e com grandiosidade hollywoodiana em outras (há tempos que não se empregava 6.000 figurantes como aqui) que Nolan pondera sobre a quantidade de pessoas que não voltam da guerra e pontua que não há covardia nem falta de patriotismo nos que querem fugir da mesma.

Dunkirk já é um novo clássico. E merece ...não... precisa ser visto no cinema, em IMAX. Não tem como se contentar com menos.


Dunkirk (Dunkirk), 2017




quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ali, hein?!


Por um período o diretor Ridley Scott esteve desenvolvendo uma continuação da sua ficção-científica de 2012, Prometheus. Tendo abominado este primeiro filme, fiquei torcendo para que o cineasta abandonasse a ideia e fosse usar seu talento em outras empreitadas. Porém, quando Prometheus 2 virou Alien: Covenant, a coisa mudou de figura. Uma simples troca de título me fez acreditar que haveria uma ‘mudança de espírito’ e meu interesse pelo filme foi de nulo a moderadamente alto. Algo me dizia que Scott poderia voltar às origens do terror da sua obra-prima, Alien - O Oitavo Passageiro, ou até mesmo investir na ação, ponto forte do excelente Aliens - O Resgate, de James Cameron.

E, de fato, Covenant funciona justamente quando emula o original de 1979 e a continuação de 1986. O terror sanguinolento ainda impressiona, mesmo que não haja o mesmo suspense intrínseco à novidade e à surpresa, e a ação empolga, mesmo que seja carregada de computação gráfica e não tenha o mesmo senso de realismo que os efeitos visuais práticos proporcionavam.


Da mesma forma, o longa também é mais fraco quando evoca Prometheus. O alento é que parece que Scott aprendeu a lição e tenta não se prender em responder a todas as perguntas do filme anterior, apenas passa pelas mais necessárias e essenciais para dar sequência à história. Satisfatório para quem é fã das raízes da franquia Alien, decepcionante para os (poucos) que gostaram de Prometheus.

Para não ser totalmente injusto com o filme anterior, vale dizer que vem de herança dele o que tem de melhor neste novo filme: Michael Fassbender, revivendo o robô David (que está ainda mais complexo) e encarnando outro robô, Walter, fisicamente idêntico, mas diferente em vários outros aspectos. Vê-lo(s) em cena é um prazer à parte.

A nova heroína tem a ingrata missão de sair da sombra da Ellen Ripley de Sigourney Weaver. E não obtém sucesso, apesar da boa atuação de Katherine Waterston. O potencial de engajar discussões relevantes que poderiam orbitar o personagem de Billy Crudup é totalmente desperdiçado em um roteiro que se limita a anunciá-lo como "o homem de fé". Não é mistério que o tema principal de Covenant é a relação criador/ criatura, o 'brincar de Deus'.

Ao mesmo tempo em que fica uma curiosidade sobre como tudo isso vai se conectar com a tripulação da Nostromo, resta também a sensação de que gradativamente o charme do Oitavo Passageiro está se perdendo. Algo bem parecido como ver que Darth Vader foi um menino bobinho e um adolescente chatinho antes de sair tocando terror na galáxia.


Alien: Covenant (Alien: Covenant), 2017




terça-feira, 25 de julho de 2017

Começo enrolado


Depois que provou-se lucrativa a moda da Marvel de “universo cinematográfico” (uma série de filmes com algum nível de conexão – seja por repetição de personagens, por entrelaçamento de histórias ou um pouco de ambos), veio a enxurrada. A rival DC Comics, por exemplo, criou o DCEU (DC Extended Universe, com Superman, Batman, Mulher Maravilha e cia.) e a Warner estabeleceu o MonsterVerse (que conta com Godzilla, King Kong e outros monstros gigantescos). Pretendendo revisitar figuras do terror clássico, como Drácula, Lobisomem, A Criatura do Lago Negro e o Fantasma da Ópera, a Universal decidiu lançar o que intitulou de Dark Universe.

E A Múmia é o ponto de partida. Além da personagem-título óbvia, o filme traz também Russel Crowe como Dr. Jekyll (e Sr. Hyde), o chefão de uma espécie de agência especializada em caçar criaturas, já consolidando para este universo mais um nome conhecido.


O problema é que o roteiro pena para criar uma identidade para o astro Tom Cruise.  O tal Nick Morton concebido para ele não consegue marcar nem despertar interesse similar aos dos personagens já populares e seu arco termina com um começo pouco animador para a franquia. Sem entrar no território de spoiler, basta dizer que o “poder” de seu personagem é a pior coisa que pode existir para o desenvolvimento dramático de qualquer história.

Jogada para escanteio frente à necessidade de se explorar a presença de Cruise, a múmia não bota medo e a produção não funciona como filme de terror. Existem sequências de ação realmente boas, sendo o ápice a cena da queda do avião, e há uma investida grande no humor que, embora funcione boa parte das vezes, está longe de alcançar o nível de diversão genuína atingido em A Múmia com Brandon Fraser 18 anos atrás.

Por respeito ao potencial dos personagens clássicos, e do elenco já anunciado até agora (Johnny Depp como O Homem Invisível e Javier Bardem como Frankenstein), o interesse pelo Dark Universe se mantém vivo. Mas, se dependesse somente desta porta de entrada, ele já estaria todo enrolado de esparadrapo fechado em uma catacumba a metros debaixo da areia.


A Múmia (The Mummy), 2017




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Última volta?


Depois de uma incompreensível mudança de gênero em uma continuação cheia de tiros, explosões, tortura e (como não?) mortes, o mundo de Carros volta às origens com um filme mais tranquilo sobre corridas, amizade, paixão pelo esporte e choque de gerações. E devolve o protagonismo para Relâmpago McQueen.

Estas decisões agem enormemente em favor de Carros 3. Os acontecimentos de Carros 2 foram praticamente (se não completamente) ignorados e Mate, por mais engraçadinho e bacana que seja, já havia provado que não tem como sustentar um longa como personagem principal.


Com paisagens de encher os olhos, a qualidade técnica da animação está notavelmente superior - também já se passaram 11 anos do original e 6 anos da primeira continuação. Mesmo assim, os realizadores parecem ter tido menos cuidado com o que sempre foi o maior charme deste universo: os detalhezinhos na caracterização de personagens e cenários. Qualquer um dos dois filmes anteriores sempre esbanjaram criatividade nas transformações de locações existentes, personalidades reais e peças do cotidiano para aquele imaginário automobilístico.  Agora, quase não há novidade neste sentido.

Carros 3 facilmente agrada quem gostou do primeiro e quem está buscando algo mainstream, mas menos agitado, dentro dessa invasão de super-heróis no cinema. Embora o filme termine em um ponto interessante (e, vejam só, o empoderamento feminino chegou também a este mundo), se a Pixar for inteligente criativamente (sabe-se lá financeiramente) encerrará a saga deste seu herói e voltará a investir em histórias originais.

Mas, claro, não sem antes completar Os Incríveis 2, por favor!


Carros 3 (Cars 3), 2017




quinta-feira, 13 de julho de 2017

Viet Kong


King Kong é uma daquelas propriedades que já teve várias encarnações e variações no cinema. Mas, até o início deste ano apenas três delas mereciam destaque: justamente as que levavam apenas o nome da criatura no título. A original em preto-e-branco de 1933, a versão de 1976 com Jeff Bridges e Jessica Lange e a refilmagem de 2006 comandada por Peter Jackson.

Todas estas produções se destacaram sobretudo pelos efeitos especiais, mas talvez pela época em que foi lançada (e por ter virado atração de parque em Orlando) a de 1976 é a mais lembrada. Porém, com enfoque maior no elo entre bela e fera, a releitura nunca chegou aos pés da original. O que Peter Jackson fez tão bem em 2006, além de repetir os personagens principais e trazer um pouco de ingenuidade frente ao desconhecido ambientando sua história também na década de 1930, foi investir boa parte do tempo de tela no habitat natural de Kong. Bem como no original, as cenas da Ilha da Caveira mergulhavam mais na fantasia e trazia o macaco gigante enfrentando dinossauros e monstros inexistentes.


A mais recente tentativa de reavivar a carreira do grandão, Kong: A Ilha da Caveira, agrada os fãs que preferem "pular" o filme com a Jessica Lange, pois cumpre justamente o que seu título já indica - praticamente toda a trama se desenrola na enigmática ilha, sem gastar tempo com pânico na civilização. Perde-se a oportunidade de (mais uma vez) recriar o icônico desfecho trágico no topo de um marco novaiorquino, mas ganha-se com a introdução de novas e pavorosas criaturas e com o clima inquietante de enclausuramento.

Talvez por se passar em 1973, logo após o fim da Guerra do Vietnã, e em uma ilha habitada por impossíveis bichos gigantes, o filme não esconde suas maiores referências: Apocalypse Now e Jurassic Park. Deste último, é de arrancar sorrisos quando Samuel L. Jackson repete sua célebre frase "Hold on to your butts". O diretor Jordan Vogt-Roberts conduz tudo com cenas empolgantes em tomadas inventivas (que não raramente parecem artes de graphic novels) e com uma edição ágil que ainda traz várias transições divertidas.

O que esta versão não tem são personagens. Existem apenas pessoas falantes que estão ali para servirem de lanche pra monstro e atores reconhecíveis para conquistar um mínimo de empatia do público. O único que desperta algum interesse e tem um pouco menos de superficialidade é o personagem de John C. Reilly, que em outras produções seria um mero alívio cômico.

Mas, claramente a Legendary Pictures pouco se importa com um legado de personagens marcantes. Sua missão é aproveitar o sucesso do Godzilla de 2014 e usar este filme como amálgama para algo maior. Quem esperou até o fim dos créditos teve a confirmação do que já não era segredo: está formado o MonsterVerse. Criaturas clássicas como Mothra, Rodan e Ghidorah surgirão em algum momento nos cinemas, que pretende ter seu ápice em Godzilla vs Kong, anunciado para 2020.

Humanos irão sofrer. Tomara que sejam só os de dentro da tela, não os de fora.


Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island), 2017




terça-feira, 4 de julho de 2017

Michael Jackson & Madonna & Minions


Lançado em 2010, Meu Malvado Favorito já não era assim um filme excelente, mas cumpria bem o seu propósito de entreter, com o dificultador e o frescor de não ser baseado em livros, HQs, séries de TV, videogames ou linha de brinquedos. Mais do que isso, conseguiu conquistar relevância cultural ao apresentar os, agora queridinhos, Minions. Era natural que em sua segunda continuação direta (além de um spin-off só com os malvadinhos favoritos amarelos) a coisa esfriasse e as ideias se tornassem mais desgastadas.

Em Meu Malvado Favorito 3 as poucas passagens realmente engraçadas ainda são as protagonizadas pelos Minions, embora nem todas as cenas protagonizadas pelos Minions sejam realmente engraçadas. Os roteiristas utilizam um recurso batido de continuações: introduzir um personagem próximo do protagonista - um filho, um pai, um par amoroso, um irmão... No caso, este último. Pois o penúltimo já gastaram no filme anterior.


Um novo vilão também é apresentado, mantendo a tradição de um vilão por filme. O que é um alento e evita o erro, por exemplo, da já esquecível franquia "rival" Era do Gelo, que foi apenas aumentando seu rol  de personagens a ponto de não ter onde mais encaixar tanta gente (ou bicho) em pouco mais de uma hora de história. Uma evidência clara desta opção, foi terem tirado de cena o auxiliar de Gru, Dr. Nefário, em uma divertida referência a O Império Contra-Ataca (porque também é difícil uma referência a Star Wars não ser divertida). Os demais personagens estão lá, sendo um pouco mais do mesmo, com histórias paralelas que pouco se desenvolvem e que se fecham com resoluções corriqueiras.

O uso de 3D não acrescenta em nada à narrativa nem à experiência do espectador, mas também não atrapalha. A dublagem nacional merece reconhecimento, primeiramente pelo bom trabalho de Leandro Hassum (em papel duplo) e Maria Clara Gueiros. Em segundo, é reconfortante notar já nos créditos iniciais que foi respeitado e mantido o trabalho original de Pierre Coffin como a voz dos Minions. Por último, mas não menos importante, foi extremamente feliz a escolha de Evandro Mesquita para o papel do vilão que tem os dois pés nos anos 1980. O ator-cantor carioca se mostra bem à vontade com o material e ainda tem a oportunidade de se auto referenciar com um "OK, você venceu, batata frita".

Mesmo quase parecendo uma desculpa para vender mais centenas de milhares de produtos, o filme garante facilmente a diversão das crianças e não deixa os pais se entendiarem, especialmente com as inúmeras referências visuais e musicais oitentistas. E qualquer produção que usa Money for Nothing no seu clímax garante ao menos uns pontinhos a mais.


Meu Malvado Favorito 3 (Despicable Me 3), 2017




quinta-feira, 29 de junho de 2017

Que faites-vous dans la vie?


Para quem sempre teve um mínimo de curiosidade em saber o que faz aquele monte de pessoas cujos nomes aparecem na tela do cinema enquanto, segurando a bexiga, espera pela cena bônus de um filme da Marvel, o ótimo canal FilmmakerIQ trouxe a resposta. Já tentei, mal e vagamente, fazer uma analogia macro com estrutura de projetos, da organização e do ciclo de uma produção cinematográfica, mas este video traz de forma clara e aprofundada todas as (principais) funções de um filme de grande porte:


Agora dá para entender aquele 'clichê' dos ganhadores do Oscar, "Ai, tem tanta gente pra agradecer...", né?


PS.: o título deste post é uma piada interna e a resposta é "cocô de bebê". Por algum motivo sem explicação, na época em que meu irmão era um bebezinho meu pai falava essa frase em francês ("o que você faz da vida?" ou "com o que você trabalha?"). Sonoramente, a tradução pedia resposta para um "o que fede na vida?"
(ATUALIZAÇÃO: Fui muito bem lembrado de que a resposta correta era também em francês: "C'est la mère des enfants", que sonoramente...)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Vida efêmera


Vida abre com um plano sequência que, além de esbanjar sua competência técnica e deslumbrar o espectador, serve para criar uma sensação imersiva, provendo ambientação à geografia do local onde se passará a história e introduzindo os personagens (porque, de tão superficial é a passagem, não chega a ser um 'estabelecendo os personagens' - afinal, com tanto rosto conhecido pra que perder tempo com isto?). Esta imersão, somada ao fato de tudo se desenrolar no presente e muito próximo da Terra, é primordial para a cativar o público e intensificar a tensão que está por vir.


Embora as cenas de suspense sejam executadas com primor e genuíno senso de terror (remetendo em vários níveis a Alien - O Oitavo Passageiro), é uma pena que saiam de um roteiro que cai num pecado irritante e, infelizmente, comum: os personagens simplesmente não agem de forma verossímil e constantemente se colocam nas situações de perigo. Não dá para acreditar que todos de um grupo de cientistas-astronautas (altamente qualificados e exaustivamente treinados) hajam sempre de forma passional e quebrando protocolos. É recorrente no filme alguma variação da frase: "Dane-se... eu vou entrar". Provavelmente a vida mais inteligente ali seja a de Calvin, o marciano. E é igualmente estranho como que todos os recursos (principalmente combustível) se esgotam tão rapidamente. E em especial quando eles são a opção do momento para destruir a criatura.

-Leve spoiler no próximo parágrafo-
A sequência final pode deixar muitos confusos, trazendo à tona até a amarga lembrança do Planeta dos Macacos de 2001. Mas, ao contrário do filme de Tim Burton que não importa quantas vezes seja revisto e analisado o seu desfecho continuará sem sentido, uma segunda conferida na conclusão de Vida dá para perceber que a edição foi deliberadamente realizada de modo a enganar o espectador. Uma trapaceada genial.

No fim das contas, a qualidade de Vida não chega no nível Mel Brooks - Que Droga de Vida, e nem atinge Roberto Benigni - A Vida é Bela.

Mas, podia bem ter tentado Danny Boyle - Por Uma Vida Menos Ordinária.


Vida (Life), 2017




quinta-feira, 22 de junho de 2017

O monstro de dentro


Aviso: Colossal é um daqueles filmes, digamos... diferentes e que não agrada a todos. Mas, a experiência de assisti-lo é mais rica quando se sabe o quanto menos sobre o mesmo. Nesta resenha não há spoilers específicos, mas ainda assim é recomendável não ler antes de ver o filme.

Nacho Vigalondo é o diretor-roteirista espanhol responsável por produções independentes como Crimes Temporais, que tem lugar cativo no concorridíssimo panteão dos filmes de viagem no tempo, e Extraterrestre, filme de 2011 que traz uma nova e intimista abordagem sobre invasão alienígena. Talvez por restrições orçamentárias, mas com extremo benefício para suas escolhas narrativas, estes temas grandiosos foram retratados com um escopo mais contido. Já com Colossal, seu segundo longa em língua inglesa, o cineasta mantém a tradição de dar uma nova roupagem a um gênero maior, podendo se aventurar mais com o aumento do escopo, mas sem perder o toque dramático e a meticulosidade no desenvolvimento dos personagens.

Anne Hathaway exercita seu talento ao viver Gloria, uma mulher com uma sucessão de fracassos e problemas, que precisa voltar para sua cidadezinha natal. Lá ela descobre um “poder”: ao entrar num local determinado em um horário específico, sua presença faz surgir um monstro gigantesco em Seul, Coréia do Sul, que repete seus movimentos em tempo real, naturalmente com consequências catastróficas.


Assim como a corrida nuclear, a ameaça química, a tensão comunista, os questionamentos éticos no avanço da genética e a degradação ambiental foram responsáveis (ou as metáforas) para a criação dos monstros cinematográficos em variadas épocas, aqui Vigalondo usa fantasmas bem atuais para a criação de seu(s) monstro(s): o ser humano e suas atitudes individualistas, a inveja, o bullying, a falta de empatia ou até mesmo a total indiferença para com o outro. O próprio ser humano é o responsável pela criação de um monstro em si ou no seu próximo. O ser humano intoxica seu próprio corpo, prejudica sua própria mente e contamina os que estão ao seu redor, sem se importar, sem se preocupar e, muitas vezes, sem sequer notar.

Outra nuance de destaque é como que Colossal também é uma grande manifestação, na sua forma peculiar, de outra temática em voga: o empoderamento feminino. Gloria é uma protagonista alcoólatra e cheia de falhas. Não é, portanto, um exemplo a se seguir, muito menos uma heroína. É possível que seja produto do meio, mas o roteiro se concentra em indicar, diretamente ou com sutilezas, como que todos os personagens masculinos principais à sua volta são tóxicos e prejudiciais à ela. O namorado falha miseravelmente em dar o apoio necessário e correto para a situação, o jovem com quem tem um caso nunca se prontifica a defendê-la, mesmo tendo plenas condições físicas para tal, e o amigo de infância, Oscar, bom... além do óbvio, seria um perfeito estudo de caso para professores de psicologia usarem em suas aulas sobre pessoas dominadoras e relacionamentos abusivos.

Com boas sacadas que acabam bem amarradas ao longo da projeção e deixam o espectador sempre às cegas com os rumos que a história vai tomar, Colossal funciona bem também como filme de gênero (e muito pouco como comédia, embora boa parte do material de marketing insista nisso). Não que esteja isenta de furos - há pontos básicos para implicar, como o fato de não parecer nada plausível que as autoridades sul-coreanas não evacuem e isolem a área da cidade em que o monstro sempre aparece. Mas, a preocupação do longa nunca foi mesmo com o desenvolvimento da mitologia, nem com a explicação da ‘lógica’ criada.

Colossal é um filme de monstro às avessas. Menos foco na destruição, mais espaço pros dramas pessoais. Mais implícito na ação, mais explícito nas metáforas.


Colossal (Colossal), 2017




terça-feira, 6 de junho de 2017

Devo, não nego...


Por uns motivos e outros, assistir filmes ou séries foi algo quase ausente na minha agenda no último mês. Entre aliens, guardiões da galáxia, planos reais, piratas do caribe, cidades perdidas e mulheres maravilhas, tenho perdido quase tudo no cinema. Então, foi hora de refletir se isto é um problema pontual e atual, ou se é algo já sintomático.

Baseado nas minhas listinhas anuais de "filmes mais esperados", parece que não é de hoje que venho falhando comigo mesmo. Tem filme que considerei como prioridade assistir no ano seguinte e que acabei passando longe. Tem até números '2' e '3' das listas!

Vejam bem, muitas vezes há sequer uma sinopse oficial dos filmes quando monto a lista no fim do ano anterior. Daí, quando começam a sair os trailers e as primeiras impressões de público e crítica de alguns, bate aquele desânimo. Tem uns que ainda quero ver, mas a grande maioria vai ficar pro dia de São Nunca mesmo.

O que 'furei' ao longo dos anos:

2009
02. O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus
07. Jean Charles
Da lista "correram por fora": Os Fantasmas de Scrooge; O Lobisomem


2010
07. As Viagens de Gulliver
Da lista "correram por fora": Fúria de Titãs; Os Mercenários


2011
05. Gato de Botas
08. Assalto ao Banco Central
10. Os Três Mosqueteiros
Da lista "correram por fora": O Número Quatro; Lanterna Verde


2012
03. O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
06. A Viagem
Da lista "correram por fora", todos(!): O Espetacular Homem-Aranha; Guerra Mundial Z; Sombras da Noite; O Corvo; Valente


2013
08. Se puder... Dirija!
Da lista "correram por fora": Jack, o Caçador de Gigantes; Uma História de Amor e Fúria; O Cavaleiro Solitário; Círculo de Fogo; O Hobbit: A Desolação de Smaug


2014
03. O Destino de Júpiter
05. Noé e Êxodo: Deuses e Reis
09. Real Beleza
10. Grandes Olhos e Pelé: O Nascimento de uma Lenda
Da lista "correram por fora": Um Conto do Destino; Planeta dos Macacos: O Confronto; As Tartarugas Ninja


2015
03. Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível
05. Mortdecai: A Arte da Trapaça
08. O Coração do Mar
09. Pixels
10. Vingadores: Era de Ultron e O Exterminador do Futuro: Gênesis e 007 Contra Spectre


2016
02. Silêncio
03. Assassin's Creed
05. Inferno
06. O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares
08. Esquadrão Suicida
09. Ben-Hur



Vamos monitorar 2017, mas parece que dá pra deduzir que não tenho respeito pelos filmes nacionais e que perdi a sintonia com Tim Burton e as Wachowski.

Agora, tem coisa aí que só me faz pensar: onde é que eu estava com a cabeça??? Nessas horas (e em outras também, mas OK) que é bom não ser um Lannister.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Olááá enfermeira!


E a notícia que está rolando nos sites especializados hoje não poderia ser melhor: a Amblin Television e a Warner Bros. Animation estão trazendo de volta a melhor série animada de todos os tempos: Animaniacs!


Diz logo onde e quando!!!

Enquanto isso, vamos cantando:


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Na pele do outro


As chamadas de TV de Corra!, poucos dias antes de sua estreia nos cinemas brasileiros, citavam em letras garrafais comentários de alguns críticos: "ASSUSTADOR" e "DIFERENTE DE TUDO O QUE VOCÊ JÁ VIU". Vendida como um filme de terror, a produção teria se beneficiado mais se não tivesse sido rotulada como tal, pois pegaria a plateia de surpresa já que é de fato assustadora e diferente do basicão que existe por aí. Mas, não pelos motivos óbvios.

Se não fosse pela cena de abertura (que já chega fugindo de um dos arquétipos do gênero), o espectador ficaria se perguntando que tipo de filme é aquele até bem além de sua metade, quando assume situações mais comuns ao terror (mesmo mantendo-se firme no propósito de se desviar de clichês). O que não significa que ele só fica assustador e diferente no terceiro ato. Pelo contrário.


Acompanhando de perto Chris, um fotógrafo afro-americano interpretado por Daniel Kaluuya (o ponto forte do pior "menos melhor" episódio de Black Mirror), em sua primeira visita à família da namorada branca, o filme transpõe com maestria o sentimento de inquietude e de toda a tensão inter-racial gerada pelo encontro. Não há ameaça, violência per se, mas um grande subentendido no contexto do esforço de pessoas que tentam se portar como não racistas, mas que acabam sendo. Os comportamentos dos personagens, sustentados por ótimas atuações, dão um tom incessante de, nas palavras do próprio Chris, "what the f**k?". Claro, descobre-se mais tarde em uma virada bem amarrada e cheia de simbolismo, sintonizado com o tema principal, há um outro motivo por aquele comportamento todo.

O diretor estreante Jordan Peele conduz a produção de baixo custo com determinação e competência e, fazendo jus à sua experiência como ator e escritor de comédia, encontra um adequado espaço para alívio cômico, personificado no amigo Rod, o Agente de Segurança do Transporte. Seu roteiro constantemente mexe com as expectativas e, talvez justamente por isto, pode não agradar a todos. Com um material que facilmente cativa a empatia do espectador e o deixa na pele (vejam bem!) do protagonista, é compreensível que parte do público queira gritar o "meta-título" do filme não para a tela, mas para si.


Corra! (Get Out), 2017




sábado, 20 de maio de 2017

Cante

(na melodia da música-chiclete mais tocada nos últimos meses - Trem Bala, de Ana Vilela)




Não é que o filme seja de todo ruim assim
É sobre perceber que existe similar, muito melhor por aí
Zootopia, por exemplo, se esforçou muito além do trabalho de voz
E criou detalhes de um mundo impressionante pra qualquer um de nós

É mesmo um pouco esquisito
Com um enredo tão simples e batido, sem nada pra pensar
Sequer existe uma cena
Que seja composta para nos edificar

Não é que todo filme infantil tenha que ter no fim uma moral
Mas não pega bem quando quase todo personagem faz algo ilegal
E se disfarça de musical só porque conta com várias canções
Mas só tem uma original no meio de várias versões

É irônico que sem música, contudo
Não tem graça nada na história se fosse assim
Por isso traria mais sorrisos
Se a cena dos testes com os bichos fosse esticada até o fim

Não é que a duração mostre brecha para aumentar
Pelo contrário, é longo a ponto de quase  arrastar
Ainda bem que acertaram na escolha dos dubladores originais
Fica a dica: se poupe da espera, não há cena após os créditos finais

Deixe o cérebro de fora
Sorria e abrace a jornada já que está ali
Esse é Sing: Quem Canta Seus Males Espanta
E a gente é só espectador querendo se divertir


Sing: Quem Canta Seus Males Espanta (Sing), 2016




quinta-feira, 11 de maio de 2017

More ana


Muito depois da temporada de premiações, que é quando eu queria ter feito isto, consegui finalmente assistir Moana: Um Mar de Aventuras.



Trata-se de uma animação sobre uma princesa Disney com personalidade forte, que não dá muita bola pras questões de realeza.

Ela tem a vontade de sair pra explorar outros lugares, pois sente que há muito mais que sua comunidade proporciona.

Mas, seu pai impõe limites territoriais, pois, por um trauma pessoal passado, sente que precisa protegê-la.

O mundo ali é um em que os elementos da natureza são manifestados em entidades.

Até que um dia a água toma forma e o oceano passa a se comunicar com ela.

E ela descobre que será peça-chave em uma missão especial, que pode salvar o mundo de um fenômeno que está destruindo as plantações.

Uma pedra rara que tem a ver com coração, oceano, ou algo assim, faz parte dessa trama.

Ela sai para encontrar um semi Deus.

Apesar da resistência dele, e de inicialmente ser na prática um vilão, eles têm que trabalhar juntos.

Sempre por perto está o bichinho zolhudo, alívio cômico do filme.

Na jornada, são perseguidos por uma tribo insana em máquinas malucas...

...e precisam enfrentar uma criatura gigante para recuperar uma arma que está fincada na sua cabeça.

É revelado que o herói tem poder de se transformar em qualquer bicho.

E no desafio final encaram um verdadeiro demônio em chamas.

Aí, Moana quebra o encanto maligno, surge a Mãe Natureza e todos vivem felizes para sempre.

Brincadeiras à parte, mesmo parecendo uma mistura de várias ideias pontuais já exploradas antes, o longa-metragem consegue criar um conjunto original e interessante, primoroso tecnicamente (provavelmente o elemento água nunca foi tão bem desenvolvido assim em outra animação antes), comprovando que a Disney continua bem à frente da concorrência.


Moana: Um Mar de Aventuras (Moana), 2016