Pesquisar neste blog:

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mais estranho não é pior


Coisas estranhas continuam acontecendo em Hawkins, Indiana. E o que é mais estranho, mas não surpreendente, é que a segunda temporada de Stranger Things é simplesmente tão boa quanto a primeira. A mesma diversão, o mesmo suspense, a mesma nostalgia. Mas, sem ser exatamente apenas mais do mesmo.

O enredo agora expande a mitologia da série, buscando inserir novidades e ampliar o que está em jogo - de certa forma não muito diferente do que várias produções cinematográficas já fizeram, como por exemplo Aliens - O Resgate foi para Alien - O Oitavo Passageiro. Só que não se contém em repetir a fórmula e aumentar a dose, mas arrisca novas abordagens, mudando significativamente a dinâmica anterior.


Mesmo em meio a um escopo maior, há a devida dedicação para o desenvolvimento dos personagens. Os atores mirins se mostram profissionalmente mais maduros, mas ainda com um charme infantil e sem apresentar trejeitos ou caracterizações exageradas. Há uma nítida evolução em Millie Bobby Brown e Noah Schnapp, agora que seus Eleven e Will Byers têm mais material para trabalhar. Os atores jovens e adultos mantêm o nível da temporada passada, com destaque para uma Winona Ryder com menos excessos e Joe Keery entregando um Steve muito mais relacionável. As novidades no elenco são bem vindas e os novos personagens têm o que acrescentar à trama, não estão ali somente para tapar buracos. Mais indicações ao Globo de Ouro e ao Emmy para atores e atrizes seriam mais do que merecidos.

Os criadores irmãos Duffer continuam responsáveis pela direção da maioria dos episódios. Mas, é interessante que criaram oportunidades para outros diretores entrarem na jogada, como é o caso do bicampeão do Oscar pela Pixar, Andrew Staton, que assume o comando de dois episódios. A temporada funciona como um excelente crescendo musical e, após o (injustamente) menosprezado sétimo episódio (uma pequena "interrupção" para um essencial solo), culmina nos dois excelentes episódios derradeiros.

O desfecho funcionaria como um perfeito final de série, se o conjunto da obra não fosse tão cativante  e não deixasse um desejo incontrolável de continuar vendo aquilo ali por mais temporadas.


Stranger Things (2a. temporada), 2017




terça-feira, 21 de novembro de 2017

Isto(não)É


Qualquer texto da Isto É hoje em dia tá parecendo jogo dos 7 erros:


Desse jeito até eu tô escrevendo melhor que a revista.

(se estiverem pensando, o sétimo erro é a falta de coerência ao escrever 'Steppenwolf'' em vez de 'Lobo da Estepe')


NOTA importante (não é fake news): este é a postagem de número 500 do blog! A que ponto chegamos...
0,5mil.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Se Liga nessa


A produção de Liga de Justiça não se deu sem atribulações. O diretor Zack Snyder, acusado por muitos de não entender os personagens da DC e criticado por dar um tom sombrio demais aos filmes que comandou anteriormente, acabou abandonando seu posto na reta final para se recuperar de uma tragédia familiar. O nerd de plantão e profundo conhecedor do universo geek, Joss Whedon, ex-Marvel, assumiu a direção com a missão de finalizar o longa. O que se deu nos bastidores foram extensivas refilmagens, que fontes apontam algo como 15 a 20% do filme sendo modificado, e que acabaram lhe rendendo o crédito de corroteirista.  O importante é que o produto final não parece um frankenstein filho de dois criadores distintos, mas uma obra coesa, mesmo com suas falhas, que recoloca o chamado DC Extended Universe no trilho certo.

Patty Jenkins já havia acertado a mão mais cedo este ano com Mulher Maravilha, mas ainda havia desconfiança sobre a condução dos principais heróis masculinos. E depois de Homem de Aço e Batman V Superman, finalmente o cinema conseguiu trazer o Superman (não, não é spoiler que ele volta) para o tom correto, como o bom exemplo que todos esperavam que ele fosse (sim, dados os últimos filmes, isto é um spoiler). Chega a parecer que tudo vai desandar assim que o personagem é reintroduzido na trama, mas logo os fãs podem respirar tranquilos ao ver o último filho de Krypton sorrindo, pregando boas maneiras e... salvando pessoas! Este é o Superman que deixa a pancadaria momentaneamente com os colegas, para simplesmente ir proteger civis. Este é o Superman que todos queriam. Este é o Superman que o mundo de hoje precisava ter de volta.


Mas, até pelo tempo em tela, Batman e Mulher Maravilha são os protagonistas. E não decepcionam. Ben Affleck parece mais à vontade com um enredo que permite um homem-morcego menos sisudo e Gal Gadot continua no mesmo embalo do seu filme solo. Essa merece ir longe neste universo. Jason Momoa, o eterno brutamontes Khal Drogo de Game of Thrones, faz um Aquaman bad boy como nunca antes visto, tirando a má impressão que o personagem tem. E o Flash é o responsável por trazer a carga de alívio cômico tão demandada para o DCEU. Só o Cyborg que, mesmo sendo crucial para a trama toda, diz pouco a que veio. Ainda assim, ele dá Liga. É empolgante ver estes heróis juntos.

O que não empolga é o Lobo da Estepe. Obscuro até para fãs mais dedicados, suas motivações são ridiculamente unidimensionais (dominar o mundo simplesmente porque pode e quer) e sua composição é através de um CGI distrator, para não dizer simplesmente ruim e barato. Sorte que ele está ali apenas para ser o fio condutor que levará a Liga a se formar. Talvez se Joss Whedon tivesse chegado um pouco mais cedo, o vilão poderia ter sido isso e algo mais. Mas, já é o suficiente.

O que Whedon conseguiu mudar a tempo, para o bem, mas não sem polêmicas, foi o compositor. No lugar de Junkie XL, escolhido por Snyder, ele colocou o experiente Danny Elfman. Mesmo sem emplacar melodias originais marcantes, Elfman entregou uma das trilhas mais interessantes do DCEU e ainda arrumou jeito de encaixar referências ao recente tema da Mulher Maravilha, o clássico e inigualável Superman de John Williams e o seu próprio tema do Batman, do filme de 1989 de Tim Burton.

Se os últimos minutinhos da produção são meio mornos, a recompensa vem com os créditos finais. No meio, uma rápida, divertida e inevitável cena com Flash e Superman. E, após tudo, uma cena não tão curta e essencial para uma, não só inevitável também, mas agora desejável e esperada, continuação da Liga da Justiça.


Liga de Justiça (Justice League), 2017




terça-feira, 14 de novembro de 2017

Ameaça atômica


Quem disser que Atômica é um "James Bond com saia" não está totalmente errado. Afinal, trata-se de um(a) agente secreto(a) do serviço de espionagem britânico MI-6 que se envolve em perigosas tramas de escala global. Mas, também não está totalmente certo. Mesmo baseada em uma história em quadrinhos, Atômica possui uma violência mais visceral, o que a distancia de que qualquer produção do 007.


Charlize Theron, como a agente Lorraine Broughton, já começa o filme com mais hematomas que Daniel Craig, Pierce Brosnan, Roger Moore e Sean Connery jamais tiveram. Talvez até juntos. E como a narrativa é estruturada em flashback, a origem de cada lesão acaba sendo escancarada para o espectador. O ponto forte do filme são as sequências de ação, herança do vasto histórico como coordenador de dublê do diretor David Leitch. Algumas são de tirar de fôlego, como uma que se inicia em um prédio, percorre escadarias e termina na rua com uma perseguição de carro, tudo isso em um longo plano sequência (provavelmente com cortes mascarados, mas, tanto faz, o efeito final é espetacular). Se Em Ritmo de Fuga não existisse, seria fácil escolher a melhor cena de ação do ano.

O roteiro é que não ajuda. Confuso e, ultimamente, sem conteúdo, se esforça para parecer mais inteligente do que realmente é. As reviravoltas são ou previsíveis ou sem graça. Ou ambos. Ainda há o fator do ‘narrador não confiável’, o que torna impossível distinguir o que realmente ocorreu do que foi apenas inventado pela agente para enganar seus superiores. Em cenários assim, são pouquíssimas obras que conseguem manter o público investido emocionalmente na história e no destino dos personagens.

Mas, parece que para os realizadores pouco importa. Com Charlize Theron estonteante e durona enchendo a tela ao som de uma inspirada compilação de hits dos anos 1980, história é o de menos. E, de fato, quando Under Pressure do Queen termina de tocar no meio dos créditos finais, tudo o que ainda permanece marcado é a estilosa dupla formada por Charlize e ação.


Atômica (Atomic Blonde), 2017




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Infinitas possibilidades


A primeira coisa que precisa-se saber sobre a animação Rick and Morty é algo que já deveria estar bem claro para todo mundo, mas uma enormidade de pessoas insiste em não assimilar. Só porque algo é um “desenho animado” não significa que seja para crianças.

Rotuladas como adequadas para maiores de 14 anos pelo Cartoon Network em sua faixa Adult Swim, as aventuras do avô cientista alcoólatra (um Doc Brown doidão e insensível) e seu neto (um Marty McFly bobinho e fracassado) poderiam muito bem ter uma recomendação etária até maior - nem tanto pela violência (estilo ficção científica, mas muito vezes crua) nem pelo linguajar (“bleepado”, mas fortemente presente), mas por conceitos e valores que não deixam de ser perigosos para uma mente em formação. Um público mais maduro (e menos conservador), porém, pode desfrutar da acidez e do entretenimento que a série tem a oferecer.


Comédia e ficção-científica são os pilares de todos episódios. No primeiro pilar, sobram humor negro e o politicamente incorreto, variando desde risíveis pequenas críticas até o puramente ofensivo e cruel. O segundo pilar abusa (no bom sentido) de sátiras e paródias (um festival de alegria para fãs de cinema e séries), mas não se limita a isto, esbanjando criatividade e desenvolvendo ideias inteligentes e originais que poderiam render episódios muito maiores que aqueles 20 minutos ou até mesmo longa-metragens completos. Não é raro o espectador perder detalhes interessantíssimos e chamadas visuais inventivas em meio a tanta correria.

Por vezes a animação decide explorar arcos dramáticos e não pega leve com seus personagens e nem, por consequência, com seu público. Seja em qual vertente, Rick and Morty não é de fácil consumo, nem é de se recomendar para qualquer pessoa. É um programa para poucos. Mas, para poucos gostarem muito.


Rick and Morty (1a., 2a. e 3a. temporadas), 2013 a 2017




quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Que Coisa...


É difícil separar quando um filme é uma decepção só por demérito próprio de quando o fator expectativa o submete a um parâmetro injusto. Seja como for, a mais recente adaptação para o cinema do livro de 1986 de Stephen King, It: A Coisa, foi apontada por boa parte de público e crítica como um dos filmes mais aterrorizantes dos últimos tempos. Mas, It não é lá essa Coisa toda.

A enervante cena de abertura serve para várias coisas, mas para principalmente mostrar um filme (bem melhor) que poderia ter sido. Lá em 1975, Spielberg já provou com Tubarão que o subentendido, o “não mostrar a criatura”, pode ser muito mais assustador que o explícito. It devota alguns minutos em uma arrepiante interação de um garotinho com Pennywise, o Palhaço Dançarino, para rapidamente já mostrá-lo com uma bocarra sobrenatural cheia de dentes, decepando e devorando sua pequena vítima. A cena choca e imediatamente tira a magia em torno do vilão da história. Um investimento maior de tempo na exploração da combinação sinistra de atuação e maquiagem do palhaço em si, deixando a parte monstruosa em CGI mais para o final, teria sido muito mais benéfica para a história.


A construção do roteiro em torno de Pennywise é falha, enfraquecendo o suspense. O espectador não é servido com elementos suficientes para entender a dinâmica dos acontecimentos... Quando, onde e como Pennywise pode surgir? O que o faz desaparecer? Quando que ele está ali para matar ou para sequestrar ou só para assustar? Os bons filmes do gênero estabelecem preceitos que criam o senso de urgência. Aqui, o resultado é apenas um amontoado de cenas (a maioria convencional, mas algumas verdadeiramente horripilantes, como uma que se dá numa garagem envolvendo um projetor) que vão acontecendo e escalando sem uma liga, sem um objetivo maior que não simplesmente submeter os personagens a momentos de terror. 

E não dá para ter uma abertura tão cruel com uma criancinha se não houver este objetivo maior, uma recompensa no final. Como várias (todas?) obras de Stephen King, os seres humanos acabam sendo tão ou mais temíveis quanto a ameaça principal. Para o arco destes também, mais ainda, está ausente este propósito narrativo e fica parecendo apenas tortura gratuita a inclusão de bullies tão perversos e de um pai abusivo, entre tantos (todos?) péssimos pais. É difícil conectar com um filme que não tenha uma figura paterna, ou um adulto sequer, digna ou ao menos simpática. É incômodo também que o elenco principal (e são muitas crianças/ adolescentes) esteja em um filme que claramente não podem, nem deveriam, assistir. Nem tanto pelas cenas com o bicho papão circense, mas pela presença desses humanos desprezíveis.

O pouco charme que a produção tem vem da turminha que se auto intitula O Clube dos Perdedores, rendendo boas atuações e uma chamada nostálgica aos anos 1980. Mas, tudo muito inferior a, por exemplo, Stranger Things, que faz isso tudo com muito mais destreza. E a comparação é totalmente inevitável, pois além dos motivos óbvios, ainda há a presença não intencional de um protagonista da série da Netflix neste filme. A ausência deste elenco infantil no próximo capítulo cinematográfico (daqui a 27 anos na trama e a 2 anos reais, pela programação estúdio) trará um grande desafio para os produtores: encontrar algum elemento carismático no meio de toda esta bagunça.


 It: A Coisa (It), 2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Goonedry


Os Goonies, um dos melhores filmes da década de 1980.

Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros, um dos melhores filmes da década de 1990.

Dois filmes que vi, revi e vi de novo incontáveis, incansáveis vezes.

E mesmo fã confesso de Spielberg, produtor de Goonies e diretor de Jurassic Park, nunca reparei o que um internauta parece ter percebido esses dias, tantas décadas depois:


É isso mesmo, aparentemente o figurino de Dennis Nedry na Ilha Nublar é uma homenagem aos três principais personagens das Docas Goon. Não há como ser só coincidência.

E que comecem as teorias de um "Spielberg Cinematic Universe", onde um dos garotos cresceu, virou hacker e mudou de nome.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O fantasma da crise (não) existencial


Ao contrário do que o título pode sugerir, A Ghost Story não é um filme de terror. E é uma obra de agradar a poucos.


A passagem do tempo é um tema central e a produção investe em longas cenas centradas no cotidiano, nas coisinhas mundanas, tornando-se propositalmente lenta e arrastada. Sua duração é de uma hora e meia, mas sensação é de três horas. Assim, é para ser consumida só, sem interrupções. Uma tarde chuvosa é uma boa pedida, mas não logo após o almoço, para evitar que o sono apareça. Esse fantasma não vai tirar o sono. Vai certamente assombrar o espectador por horas após o fim do filme, mas não da maneira usual.

Sendo um drama sobre perda e luto, com a presença de Casey Affleck num papel principal é impossível não remeter a Manchester à Beira-Mar. Mas, logo as similaridades se esvanecem e o longa passa a fazer jus a seu título, contando de fato a história sob a perspectiva do fantasma. Filosófico, poético e minimalista, ainda consegue criar uma interessante mitologia em torno do que é ser fantasma, por que se apega a uma casa específica, qual a razão da sua existência. Mesmo sem parar para explicar nada, passa uma clara noção de como funciona a dinâmica daquilo tudo.

Quem conseguir se manter acordado (e vale a pena se esforçar para tal) estará bem servido de uma experiência inusitada e singular.


- (A Ghost Story), 2017




sábado, 28 de outubro de 2017

Há solução, Sherlock


O revés de se fazer um trabalho excelente é que tudo que vier depois e não for do mesmo nível pode, por comparação, ser taxado de ruim. Desde que sua primeira temporada foi lançada em 2010, Sherlock passou a correr este risco. A segunda e a terceira temporadas conseguiram se manter à altura, mas finalmente o destino implacável assolou a série da BBC. E é assim que é. Mesmo bem acima da média do que tem por aí, a quarta temporada foi injustamente menosprezada pela crítica. Mas, certamente inferior às anteriores, não é ruim.

Os problemas parecem elementares. O primeiro é que há uma guinada no tom e a temporada é mais sombria que o de costume, tanto com os vilões quanto para o estado em que os heróis se encontram. Ainda há o humor costumeiro, para satisfação de todos, mas agora a série contraria expectativas, adentrando territórios mais soturnos. Outro ponto destoante advém da introdução de um novo, digamos, elemento, quando entra em cena fatores quase paranormais, nesta narrativa outrora racional. E, pior, este elemento além de pouco contribuir para a mitologia da série, também traz um desnecessário acréscimo ao passado de Holmes.


Mas, a temporada tira proveito de Benedict Cumberbatch, explorando o lado emotivo de Sherlock, e continua com oportunidades interessantes para o bom trabalho de Martin Freeman como Dr. Watson. O co-criador da série, Mark Gatiss, encontra mais espaço para seu Mycroft ao mesmo tempo em que, junto com o outro criador - Steven Moffat, demonstra claros sinais de arrependimento por ter se desfeito precocemente de Moriarty e do talento de seu intérprete, Andrew Scott.

Se não fosse por um acontecimento impactante, o primeiro episódio seria esquecível. O segundo chega a ser um dos melhores de toda a série, trazendo momentos tensos e dando ao público as habituais 'sherlockices', além de cenas inventivas com as graciosas deduções do detetive. Seu desfecho é com um gancho empolgante para o episódio derradeiro da temporada (ou da série?). Porém, o terceiro escorrega em inconsistências lógicas e entrega um produto que faz pouco sentido.

Seus últimos segundos, todavia, conseguem reacender a chama dos fãs e aguçam a vontade por mais temporadas. De repente, sem o compromisso em nutrir uma história a longo prazo, os produtores conseguem retomar as rédeas e voltar à suposta proposta original: episódios fechados, como um telefilme cada, centrados em Holmes e Watson solucionando casos.


Sherlock (4a. temporada), 2017

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Saindo do coma dos romances


Raramente comédias românticas fogem do seu padrão. Doentes de Amor, produção independente sensação no Festival de Sundance este ano, provê um destes raros momentos.

Centrado no relacionamento entre um comediante paquistanês e uma americana branca, o filme poderia muito bem embarcar numa jornada de esteriótipos e de piadas fáceis. Porém, prefere contar uma história mais humana, com personagens reais, cheios de defeitos, mas sempre buscando o melhor para balancear suas vontades em meio a amarras religiosas, familiares, sociais e culturais.


O roteiro, que se não for indicado ao Oscar será uma injustiça sem tamanho, não só entrega diálogos primorosos, mas também faz um ótimo trabalho em não tomar partido e criar base para empatia a praticamente todos os pontos de vistas.

A perfeita química entre o casal principal dá o tom mas, mais uma vez subvertendo o gênero, o longa acha espaço adequado para o relacionamento do protagonista com sua família e, principalmente, com os pais da moça. Estes, vividos por Ray Romano e Holly Hunter, brilham e praticamente assumem o foco central em boa parte da trama.

Quem assistir ao filme totalmente sem referências ainda terá uma grata surpresa no começo dos créditos finais, com uma revelação (não escondida no material publicitário) que dá um charme a mais à produção.

Doentes de Amor mostra que comédias românticas conseguem quebrar a estrutura básica de 'paixão inicial - fator complicador - reconciliação' e ainda dizer algo significativo sobre realidades contemporâneas. Também evidencia que Hollywood só ganha ao sair da banalidade, abrindo mais espaço para mulheres e 'homens não-brancos' na frente e atrás das câmeras.


Doentes de Amor (The Big Sick), 2017




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Macacos me mordam!


Talvez seja difícil de entender a fixação de Hollywood com a franquia Planeta dos Macacos. O filme original de 1968 rendeu quatro continuações, além de série de TV, mesmo tendo um dos finais mais deprimentes da história do cinema. Uma reviravolta genial, mas muito "pra baixo" pra despertar o clamor por mais. Depois, em 2001, Tim Burton resolveu fazer uma refilmagem, que ficou marcada por ter um dos finais mais ridículos da história do cinema. Uma reviravolta inesperada, mas totalmente sem sentido. Imaginava-se que a trajetória dos macacos nas telonas havia chegado ao fim.

Mas, como um vírus resiliente, a saga símia ressurgiu em 2011 num formato sempre visto com maus olhos: um reboot ~ prequel. No entanto, Planeta dos Macacos: A Origem surpreendeu, provando-se um bom filme. Não tardou para os estúdios darem luz verde para uma continuação. Em 2014, Planeta dos Macacos: O Confronto foi outra grata surpresa, sendo superior ao seu antecessor em praticamente todos os quesitos. Mesmo tendo bastante ação, principalmente da metade pra frente, o filme era um blockbuster incomum, com muitos momentos de silêncio, sem uma estrela chamativa no elenco e bastante focado no desenvolvimento do personagem principal, Caesar - o macaco.


Num sistema tão preso a fórmulas de sucesso, este ano foi milagrosamente lançado mais um capítulo desta nova trilogia. Intitulado Planeta dos Macacos: A Guerra, o filme desafia seu próprio título e sua campanha publicitária, e se nega a se enquadrar no padrão de produções de guerra, preferindo ser também uma história contida, centrada em Caesar. Para o bem, e pela coerência, da trilogia.

O diretor de O Confronto, Matt Reeves, retorna com a mesma energia e cria um arsenal de cenas tensas e de momentos tocantes. Também retorna o compositor Michael Giacchino, agora com uma trilha sonora épica - provavelmente o melhor trabalho de sua consistente carreira. Responsáveis por transparecer o realismo necessário para sustentar as produções, mais uma vez o show é dos efeitos especiais e das atuações por captura de movimentos, sobretudo a divertida adição de Steve Zahn como Macaco Mau e a de Andy Serkis como Caesar - digna de Oscar.

Assim como todas as outras incursões neste universo, o filme é carregado de alegorias sociais e políticas, algumas sutis, outras nem tanto (como o líder polêmico, cercado de extremistas, que quer construir um muro gigante). Aliás, em torno do vilão vivido por Woody Harrelson se dá um dos dois pontos fracos do filme: em determinada cena (até bacana, por sinal) ele para por uns 5 minutos e, através de um diálogo desnecessariamente expositivo, tem que explicar para o público o que está acontecendo ali. Sem entrar em spoilers, basta dizer que o outro ponto fraco está ligado a pequenos acasos convenientes para o roteiro que ocorrem no terceiro ato, como a intervenção da mãe natureza no clímax da história. Bom, de repente era apenas mais uma alegoria nada sutil.

A Guerra é, no fim das contas, um exemplo de como se fechar (será?) com chave de ouro uma jornada que se deu o tempo necessário para evoluir, sem correria, sem incoerência.


Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes), 2017




quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Spielberg: de onde veio, para aonde vai?


Notícia: A premiada documentarista Susan Lacy vai fazer um filme sobre Steven Spielberg. Além de entrevistas exclusivas com tipos como Martin Scorsese, George Lucas, Francis Ford Coppola, Robert Zemeckis, Kathleen Kennedy, JJ Abrams, John Williams, Tom Hanks, Harrison Ford, Tom Cruise, Daniel Day Lewis, Leonardo DiCaprio, entre vários outros, ela também registrou mais de 30 horas com o próprio Spielberg.

Reação: Uau. Isso vai ser espetacular.

Sequência da notícia: É uma produção da HBO.

Sequência da reação: Uh-oh. Ou vai tratar de destrinchar a sanguinolenta batalha inicial de O Resgate do Soldado Ryan e explorar as cenas de nudez e sexo de Munique, ou então vai desvendar alguma obscuridade pessoal terrível do cineasta.

Naturalmente, o documentário intitulado simplesmente Spielberg, que já está na grade do canal da TV fechada e também na sua plataforma HBO GO, não é nada disso. Trata-se de uma celebração da carreira do mais prolífico e influente cineasta de todos os tempos, ao mesmo tempo em que expõe algumas de suas falhas e surpreendentemente adentra um pouco de sua intimidade.


Para quem já é fã e acompanha com detalhe a carreira de Spielberg, há pouquíssima novidade. Mas, mesmo assim é obrigatório e imperdível. E quem é leigo ou pouco ligado, estará muito bem servido. Antes, porém, um aviso: há spoilers (no caso, cenas finais de filmes sendo exibidas sem cerimônia) das principais obras do diretor, como Encurralado, Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T. - O Extraterrestre, Império do Sol, A Lista de Schindler, Guerra dos Mundos, Munique... E esses são filmes que merecem ser vistos antes deste documentário.

O formato da produção é extremamente básico, mas aqui vale muito mais o conteúdo, embora alguns filmes sejam completamente ignorados (O Mundo Perdido, Além da Eternidade, O Terminal) e outros quase (Hook: A Volta do Capitão Gancho, As Aventuras de Tintim). Há pouco espaço também para os rumores polêmicos que sempre circundaram Hollywood sobre as supostas atribulações nos bastidores de Poltergeist - O Fenômeno e do próprio Hook.

Apesar de já ter uma duração maior, quase duas horas e meia, fica nítido que muito mais poderia ser mostrado. As façanhas e os sucessos como produtor, por exemplo, são ligeiramente pincelados em poucos segundos, com a aparição de vários cartazes dos filmes e séries que tiveram seu toque de midas. Mas, um filme com boa história e personagens cativantes é assim: mal termina e fica o gostinho de quero mais.

Quem sabe Susan não lança 'Spielberg 2' ou 'Spielberg: The Mega Extended Edition'? Afinal, aquele monte de celebridade não conversou com ela só por poucos minutos e ainda deve ter muita coisa valiosa nas 30h que passou com o cara.


Spielberg (HBO), 2017




sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Androides: de onde vêm, para aonde vão?


Eu assisti à versão original de Blade Runner – O Caçador de Androides (a mesma que foi para o cinema em 1982) em VHS lá pelo fim da década de 1980. Nos meados anos 1990, tive a oportunidade de ver a de 1992, subtitulada  ‘Versão do Diretor’e sem a narração, o “final feliz” e com algumas inserções (como a  ambígua e desnecessária insinuação de que Rick Deckard pudesse ser um replicante). Por fim, para me preparar para Blade Runner 2049, semanas atrás vi a ‘Versão Final’, de 2007– o que se mostrou uma decisão acertada, já que, apesar de ter sido vendido como uma história quase que independente, o novo filme é na verdade uma continuação que recorre a muitos detalhes do primeiro.

Blade Runner 2049 é um filme que não deve em nada ao seu antecessor e, em alguns aspectos, é até melhor.


Dito isso, um pouco de polêmica. Estar à altura já é de fato um elogio, haja visto o merecido status de cult que o filme de Ridley Scott conquistou ao longo dos anos, após fracassar nas bilheterias. Não há como negar as qualidades técnicas, a criatividade e a singularidade por trás da produção original. Porém, se analisado friamente, trata-se de um enredo muito simples e básico. Claro que todos acabam se lembrando do icônico e belo monólogo das “lágrimas na chuva” que o replicante Roy Batty entrega ao final da sua jornada, mas é um momento que, francamente, o personagem e o filme não fizeram por merecer. O Roy de Hutger Hauer não dá nenhum indício daquele comportamento ao longo da projeção e, momentos antes, está perseguindo Deckard como se fosse um predador irracional, literalmente uivando. A mudança para um cara introspectivo e filosófico vem “do nada” (pra melhor, claro), tentando dar ao filme um tom mais intelectual aos temas que já vinham sendo explorados minimamente: origem da vida, longevidade, morte.

Mesmo sem uma cena tão marcante quanto à de Roy e Deckard no telhado, 2049 acerta em manter o ritmo, o visual e o tom daquele universo. E não só perpetua o debate existencialista, mas também o expande ao acrescentar algumas novidades que acabam sendo a força-motriz deste novo enredo. Evitarei spoilers, mas fica o aviso que a principal novidade vai demandar um pouco de suspensão de descrença por parte do espectador. Outras comentarei: talvez até para manter a dúvida sobre a origem de Deckard (que quase é esclarecida aqui, só para numa frase seguinte ser desconstruída de novo), agora aprendemos que alguns replicantes não só viveram mais do que estavam programados, como também envelheceram. Aquela polarização que existia (replicantes são perfeitos e humanos não) que refletia até nos animais (pragas urbanas, como pombos, eram reais e animais exóticos eram fabricados), perde-se aqui. Há replicantes que possuem deficiências físicas, imperfeições metafóricas que os tornam mais humanos. Pra pior, se os porcos de George Orwell forem parâmetro.

A esperada (e essencial) aparição de Harrison Ford acontece tardiamente, só lá para depois de uma hora e meia de filme. Mas, sem prejuízo, pois as “adições” ao elenco vão se sustentando muito bem até lá. A própria participação de Edward James Olmos, em uma curta reprise de seu papel original, é gratuita e não acrescenta nada (a não ser nostalgia). Mas, o grande astro é mesmo o diretor Denis Villeneuve que, depois de entregar o melhor filme do ano passado, aproveita da experiência do diretor de fotografia Roger Deakins para provar que está afiadíssimo no seu jogo. Ele apenas escorrega ao acrescentar irritantes recursos que são mais típicos de novela da Globo: voice-overs com diálogos que aconteceram minutos antes e flashbacks de cenas que ainda estavam frescas na cabeça do espectador. De repente daqui uns cinco anos eles são retirados em uma ‘Versão do Editor’.

Uma ficção-científica moderna com estilo clássico, é pouco provável que 2049 atinja a mesma relevância cultural que O Caçador de Androides. Mas, por comparação, merecia.


Blade Runner 2049 (Blade Runner 2049)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Ninjastay or Ninjago


Apesar das horas e horas de consumo de Lego Ninjago por meu filho na Netflix, nunca sentei para assistir a um episódio completo. Tenho uma vaga noção dos personagens e do enredo da série, mas nem de longe tenho propriedade para criticá-la ou para compará-la à sua versão para o cinema.

Algumas coisas são óbvias: pelo estilo da animação já dá para perceber que o investimento na migração para a tela a grande foi bem maior do que os dos episódios da telinha. Na versão original em inglês, ainda foram dedicados uns dólares a mais para trazer atores mais famosos (como Jackie Chan e Dave Franco) para dar voz aos heróis. O que na versão dublada não faz diferença nenhuma.


Sem procurar estabelecer uma história de origem, o filme faz uma rápida apresentação mascarada em uma chamada do noticiário local e logo joga os personagens na ação que estão habituados. Pode até ser uma boa pedida para os fãs já estabelecidos, mas pra quem queria um pouquinho de pano de fundo o roteiro é uma decepção. Pra quem queria um arco para os protagonistas, também. Basicamente há apenas o desenvolvimento do ninja verde Lloyd e do vilão Garmadon, enquanto os outros ninjas são quase sub-coadjuvantes (irônico que na abertura a única ninja mulher exalte algo sobre empoderamento feminino, mas que no final saia sem ter feito nada memorável e que seja até difícil lembrar seu nome).

Agora, quem queria humor e ação não sairá desapontado. A não ser que pare para comparar com os ótimos predecessores do mundo dos bloquinhos - Uma aventura Lego e Lego Batman: O Filme (lançado neste mesmo ano). Ninjago tenta repetir a mesma dose de quase insanidade, da criação dos detalhes, da meta-paródia, mas sem exatamente atingir o mesmo nível. Fica parecendo que a fórmula de sucesso aplicada nos anteriores não era adequada para este material.

Mas, estas podem apenas ser palavras duras de um velhote ranzinza que claramente não faz parte do público-alvo da produção.


Lego Ninjago: O Filme (The LEGO Ninjago Movie), 2017




quarta-feira, 27 de setembro de 2017

À procura da batida perfeita


Se tem uma regra que o mais recente filme de Edgar Wright segue é aquela (proposta aqui no blog oito anos atrás) que estabelece como fazer um título nacional melhor que o original em inglês. Em Ritmo de Fuga é bem melhor que Baby Driver. E muito em sintonia (vejam só) com o espírito do filme.

A grande sacada que eleva a produção a um patamar bem superior que um simples ‘bom filme de ação’ é seu elemento musical. Para aliviar um zumbido no ouvido, o protagonista Baby vive o tempo todo ouvindo música através de seus fones e, assim, os espectadores acompanham a sua vida agitada como motorista de fuga embalados por uma trilha sonora vibrante e eclética. Espertamente, diretor e editor tentam extrair o melhor da combinação de imagem e som ao, por exemplo, casar disparos de arma de fogo e movimentos de objetos com a percussão das canções. 


Com esta pegada, o público é presenteado com alguns dos primeiros 15 minutos mais empolgantes do cinema: um prólogo que envolve uma perseguição pelas ruas de Atlanta onde os carros praticamente dançam uma elaborada coreografia; e um plano sequência durante os créditos iniciais que acompanha Baby, à pé mesmo (mas... impossível não admirar um plano sequência tão fluido e rico em detalhes). Só que justamente a genialidade deste começo acaba prejudicando um pouco o restante da produção que, não muito diferente de Guardiões da Galáxia Vol. 2, até consegue manter um ritmo condizente, mas nunca entrega cenas superiores, ou tão boas, quanto estas.

Ansel Elgort e Lily James apresentam a química e o carisma necessários para a dupla central, mas são Jon Hamm, Kevin Spacey e Jamie Foxx que parecem estar se divertindo nos papéis dos ameaçadores antagonistas deste submundo tarantinesco. E, embora a ação e a violência se amplifiquem no terceiro ato é também quando o roteiro desanda nas motivações de seus personagens. Não que este tipo de filme necessite de se aprofundar num estudo psicológico de suas crias, mas espera-se que sejam movidos por decisões coerentes com a realidade estabelecida.

Contudo, desligando um pouquinho o senso crítico, vidrando um pouco mais os olhos na tela e dando um grau a mais no som, é possível desfrutar deste novo marco da cultura pop na plenitude pretendida por seus realizadores.


Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), 2017




sábado, 23 de setembro de 2017

Quem?


Hoje é dia de The Who no Rock In Rio, então nada melhor que relembrar a melhor referência na cultura pop à esta banda: Animaniacs!


Genial.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Z: a oportunidade perdida

Nas graças do imaginário popular e fomentados por interesses políticos, econômicos, científicos e até filosóficos, o início do século XX viu uma explosão de exploradores europeus e americanos se aventurando nos setores desconhecidos e remotos da floresta amazônica. As façanhas e desventuras de um dos mais famosos, Percy Fawcett, são o tema de Z: A Cidade Perdida.


Cobrindo cerca de 20 anos da vida do militar e arqueólogo britânico, o filme não tenta se passar por uma aventura à la Indiana Jones, como muitos esperavam, mas trata de se concentrar no seu protagonista. E, embora na maior parte consiga fugir dos estereótipos comuns das produções envolvendo selva, animais e povos nativos, infelizmente cai em vários dos clichês das cinebiografias. Não bastasse isso, a partir das passagens da I Guerra Mundial o longa flerta com a pieguice, a ponto de incluir no terceiro ato o clichê-piegas do momento de separação em que um personagem sai correndo atrás do veículo em movimento.

O roteiro também não ajuda com interlocutores de Percy verbalizando o óbvio sobre pontos da personalidade e as consequências das ações do personagem, que seriam muito mais ricos se tratados de forma sutil. Enquanto isto, outros temas que aparentam relevância, como os problemas com o pai dele, logo são esquecidos e ficam sem explicação. Como também fica no ar o motivo de Percy batizar a cidade de ‘Z’ (nada menos que o título do filme).

As boas atuações de Charlie Hunnam e de um Robert Pattinson quase irreconhecível são destaques positivos, enquanto Siena Miller parece desperdiçada em um papel que tenta dar uma voz feminista e independente a uma figura que passa praticamente todo o tempo sendo a boa esposa que escreve cartas para o amado, enquanto gera e cria seus filhos.

Mais do que o que realmente aconteceu com Percy, a principal dúvida que fica no final é: como que os realizadores deixaram este material com enorme potencial se transformar em apenas uma boa Sessão da Tarde?


Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z), 2017




quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cinco voltaram, mudados


A escalação é de endoidar qualquer cinéfilo.

De um "lado", cinco grandes diretores clássicos: John Ford (No Tempo das Diligências, Vinhas da Ira, Rastros de Ódio); William Wyler (Os Melhores Anos de Nossas Vidas, A Princesa e o Plebeu, Ben-Hur);  John Huston (O Falcão Maltês, O Tesouro da Sierra Madre, Moby Dick); Frank Capra (Aconteceu Naquela Noite, A Mulher Faz o Homem, A Felicidade Não Se Compra); e George Stevens (Os Brutos Também Amam, Assim Caminha a Humanidade, O Diário de Anne Frank).

De outro, cinco renomados cineastas da atualidade: Paul Greengrass (O Ultimato Bourne, A Supremacia Bourne); Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno, Círculo de Fogo); Lawrence Kasdan (roteirista de O Império Contra-Ataca, Caçadores da Arca Perdida); Francis Ford Coppola (trilogia O Poderoso Chefão, Apocalypse Now); e Steven Spielberg (sério, precisa??).


A minissérie documental da Netflix, Five Came Back, traz Spielberg & cia dando seus depoimentos sobre as obras e feitos de Ford & cia, da época em que essas cinco figuras então já respeitadas em Hollywood se alistaram para participar e registrar de perto a II Guerra Mundial. Um alinhamento astral em torno de um tema ainda rico em histórias e que tem como cereja no topo do bolo Meryl Streep como narradora, que (claro, né?) ganhou um Emmy de Melhor Narração este ano por este trabalho.

Desde a sequência de abertura, que não deve nada às demais séries de ficção de hoje em dia e conta com um tema musical emblemático de Thomas Newman, é possível perceber que houve o devido investimento e o devido cuidado que o material merecia. É visível a paixão, mesmo que existam desapontamentos, nas falas dos cineastas atuais para com seus antecessores, em uma mesma proporção com que havia paixão e desapontamentos daqueles para com Hollywood e a guerra em si.

Utilizando bastantes imagens de bastidores e cenas dos próprios documentários produzidos à época pelos cineastas (muitos deles também disponíveis atualmente na Netflix), Five Came Back é, em mesma escala, um presente tanto para amantes dos cinema, quanto para interessados pela história da II Guerra. É possível que os menos interessados em um dos dois temas se sinta um pouco perdido no 'quem era quem' de Hollywood ou na relevância do contexto da II Guerra em cada situação, mas mesmo assim a série consegue ser acessível, sem ser didática.

Após três envolventes capítulos, com toda glamourização e todos horrores que uma guerra pode trazer, o espectador termina com uma visão mais clara sobre a influência do cinema na II Guerra e a influência da II Guerra no cinema.


Five Came Back (Netflix), 2017




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Maravilha, DC


Em um filme que nem era dela, Batman V Superman: A Origem da Justiça, ela já se destacou. Como contraponto ao Superman amargurado, que desde Homem de Aço parece pouco se importar com os homens, a Mulher Maravilha dessa geração surge muito parecida com o Superman do Christopher Reeve: idealista, por vezes inocente e, principalmente, uma heroína nata, convicta na missão de salvar a humanidade, mesmo que ela não mereça.

Em seu longa-metragem solo, a personagem Diana (que curiosamente nunca é referida como Mulher Maravilha) é sustentada pelo carisma, pela confiança e, claro, pela beleza de Gal Gadot. Seu companheiro em tela, Chris Pine, traz charme e bom-mocismo na medida certa, e a química perfeita entre os dois rende momentos divertidos e tenros. A produção transpira empoderamento feminino e a diretora Patty Jenkins conduz cenas de ação memoráveis de tirar o fôlego.


Os problemas estão no roteiro, escrito por homens, óbvio.

A dinâmica do envelhecimento da heroína não fica clara. Ela para de envelhecer em certa idade? Ou ela envelhece muuuuuuito devagar e foram séculos que se passaram em Themyscira? E qual o motivo daquele mistério em torno das origens de Diana? Por que sua mãe não conta a verdade logo quando a filha vai embarcar em uma jornada "talvez sem volta"? Ela espera que o vilão explique tudo para Diana no momento de maior perigo de sua vida??

A própria reviravolta em torno do vilão não é nada surpreendente e se desenrola em meio a vários clichês do gênero. Aliás (SPOILERS a seguir), teria sido muito mais interessante se Ares não fosse uma só pessoa, mas várias, ou melhor ainda, uma espécie de entidade não física, uma manifestação coletiva, difícil de se combater - o que justificaria a eterna luta da Mulher Maravilha na terra dos homens. Afinal, onde ela estava durante a II Guerra Mundial? Tirando poeira de múmia no Louvre enquanto esperava ser chamada para Liga da Justiça nos anos 2010?? (E, pior, onde estava o Deus da Guerra??)

Mas, francamente, pouco importa... Só o fato do universo da DC nos cinemas ter finalmente entregue um filme com genuíno espírito de super-herói já ameniza os erros dos homens.


Mulher-Maravilha (Wonder Woman), 2017





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ainda a melhor do Brasil


Gilberto Gil
Ricky Martin
João Bosco
Raimundos
Eduardo Dussek
Rita Pavone
Genival Lacerda
The Police
Rita Lee
The B-52’s
Jane e Herondy

Um junta-junta bizarro?

Não, eclético: segundo volume do projeto mais inusitado da melhor (e invariavelmente criativa) banda do país.


Chegou Música de Brinquedo 2!

Pato Fu 25 anos.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Na lista negra


A premissa de Death Note é instigante: e se um ser humano ficasse de posse do caderno de uma entidade da Morte, no qual as pessoas cujos nomes fossem escritos em suas páginas seriam mortas? Porém, o que poderia ser uma engajada e sombria discussão sobre moral e poder, na verdade é um filme policial bobinho com toques de terror. Não li nem assisti aos cultuados mangás/ animes/ filmes japoneses que precederam esta adaptação americana bancada pela Netflix, mas consigo pressentir que os fãs dos originais devem estar decepcionados.

O filme passa correndo por seus temas, apresentando mortes gráficas (que parecem saídas diretamente da franquia Premonição), até uma correria literal – uma perseguição a pé no terceiro ato que logo se torna repetitiva e que culmina em um diálogo que só serve para “entregar” o protagonista no desfecho da história. Muita coisa parece cair do céu, como o próprio caderno da morte, e fica a nítida impressão de que o roteiro não soube alocar no tempo restrito de um longa-metragem tudo o que queria trazer à mesa.


Qual é a de Ryuk e as maçãs? Qual é a de L e os doces? Qual é a de Watari e o papo do sono? Qual é a da antiga sociedade secreta que transformava órfãos em ultrasherlockholmeses modernos? As ações de Kira, que deveriam dar o devido peso à história, são resumidas em uma montagem que não deixa transparecer seu escopo nem a passagem de tempo. As próprias regras de uso do caderno (e parece haver dezenas delas)  vão surgindo e sendo pinceladas por conveniência.

O ator principal, que prova ser fraco desde seus primeiros gritos histéricos forçados após encontrar com Ryuk (este com aspecto realmente assustador e bom trabalho de voz de William Dafoe), não traz credibilidade nem ao romance central, reforçado pela falta de química com a parceira de cena. Ambos protagonizam uma das trocas de “eu te amo” mais chochas da história do cinem... ehrrr... das produções originais de provedores de streaming.

O diretor Adam Wingard até emprega um estilo interessante e acerta em várias composições visuais, mas não consegue ajustar o tom de sua obra. Um reflexo disto é a incompreensível inclusão de imagens de bastidores nos créditos finais. Como em uma comédia, ali também estão pequenos erros de gravação. Isso porque os maiores erros de gravação já vinham sendo apresentados ao longo dos 100 minutos anteriores.


Death Note (Death Note), 2017




sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Volume 2 do Vol. 2


Mais de uma pessoa (e duas já são muito aqui pra este blog, rsrs) me questionaram porque eu praticamente só escrevi coisa boa sobre Guardiões da Galáxia Vol. 2, mas dei "apenas" 3,5 como nota. Bom, antes de mais nada, esclareço que 3,5 já é mais que "bom". Agora, o lance é que os pontos negativos estavam basicamente inseridos em contexto de spoilers e eu tento evita-los ao escrever.

Mas, já que insistem, vamos lá...

(A partir de agora, alerta: SPOILERS para o filme)


O primeiro ponto que me incomodou foi influenciado por uma questão pessoal, de momento. Sei que não é profissional deixar situações externas alterarem a percepção e, ultimamente, a análise da obra, mas... eu não sou profissional do assunto. Rsrsrs.

Eu já tinha exposto no post original que o drama do filme se baseava "principalmente em defender que pais são péssimos". Eu assisti ao filme poucos dias após o dia dos pais, em uma semana em que eu estava longe dos meus filhos, a trabalho. Guardiões 2 tem (ou menciona) apenas dois pais -Ego e Thanos- e ambos são simplesmente os piores pais do mundo. Da galáxia, quer dizer. Não funcionou pra mim. Pais e filhos por aí mereciam um pouquinho mais.

Os outros pontos giram em torno do vilão Ego.

Para começar, ele surge em um momento muito oportuno, como uma demanda de roteiro e não algo lógico na trama. Por que ele não surgiu no momento crítico ao final do Guardiões "Vol.1", por exemplo? (A resposta é porque Kurt Russel não estava contratado e nem sabiam que o filme ia fazer sucesso e ter uma continuação).

Ele se diz uma Divindade (ou algo assim) e estava procurando por Peter Quill há muito tempo. Esse cara ia sofrer com Onde Está Wally?. No Guardiões "Vol.1", o Senhor das Estrelas era mega-conhecido e procurado, até deu entrada oficial em presídio intergaláctico e tudo mais.

Toda aquela cena de Ego explicando o passado para Peter através de uma espécie de museu de cera animado é bem ruim. Desnecessariamente expositiva e sem sentido dentro da realidade da história. E o fato de ele ter causado a morte da mãe de Peter, e como causou, não foi um artifício de bom gosto para "vilanizá-lo" .

Por fim, a sequência final do filme expõe claramente como que os realizadores não estavam preparados para lidar com o escopo que prepararam: o indivíduo É o planeta em que os personagens estão e, só para citar um exemplo, precisa de criar tentáculos para lutar contra eles??

Taí. 3,5 padecinhos tá justo, sim.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

É melhor guardar do que vingar


A cena de abertura de Guardiões da Galáxia, com o protagonista em uma missão num planeta desconhecido dançando ao som dos anos 80, servia para já avisar: mesmo sob a marca da Marvel, aquele era um filme com espírito e estilo bem diferentes dos filmes de heróis até então. Grata surpresa, na verdade nem era um filme de super-heróis: estava muito mais para uma aventura espacial recheada de humor. Mesmo tendo se passado só três anos de lá pra cá, quem o assistiu só uma vez pode simplesmente ter se esquecido do clima diferenciado criado pelo diretor-roteirista James Gunn. Mas, Guardiões da Galáxia Vol. 2 apresenta, novamente, uma abertura que já joga o espectador na sintonia correta.


A sequência dos créditos iniciais desta continuação, que também traz um protagonista dançando ao som dos anos 80 durante uma missão num planeta desconhecido, é tão inventiva, divertida e cativante que chega a deixar a plateia até preocupada com o restante do filme – não tem como manter este ritmo e ser tão bom assim por mais duas horas. Mas, Guardiões 2 não deixa cair o nível da ação e da descontração durante toda sua duração. É impossível não gargalhar várias vezes, sozinho ou junto com Drax.

A produção também consegue investir no drama, proporcionando uma faceta emocional inesperada e bem-vinda, mesmo que se baseie principalmente em defender que pais são péssimos e que é melhor fazer dos amigos a família. Causa estranheza também que a dose de violência esteja um pouco acima dos padrões Disney-Marvel e, talvez, no limite da indicação etária. A recompensa é que as cenas mais intensas são criadas com imagens “quadrinhescas” com uma estética de se admirar.

O ponto extra para Guardiões é ter se sustentando até aqui sem as muletas do Universo Cinematográfico da Marvel. Há espaço (sideral) de sobra (e as várias pequenas pontas abertas no final são indícios disto) para que seus personagens principais e secundários continuem sendo desenvolvidos sem a necessidade de participações de Homem de Ferro & cia. Fica a torcida para que a confirmação da presença de Peter Quill e sua gangue no próximo filme dos Vingadores não force atos recíprocos para Guardiões Vol. 3.


Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy, Vol. 2)




quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Avalanchezinha


Se não fosse pelo burburinho que causou no festival de Sundance, talvez Operação Avalanche não teria entrado no meu radar. Se não fosse pelo tema, a suposta encenação em estúdio da chegada do homem à Lua, talvez eu não o teria assistido. E talvez teria sido melhor assim.

O primeiro problema desta produção independente é o estilo: câmera na mão. Ainda não consigo deixar de ficar (mesmo que ligeiramente) nauseado com este desnecessário formato. Neste caso, ele poderia até ser justificável já que o filme se posa como um documentário perdido da época do programa Apollo. Mas, como todos sabem que ele é falso, filmá-lo assim pouco contribui e só faz evidenciar de que trata-se de um filme barato (sem conotações pejorativas). Sua artificialidade se dá não somente por ser notório que os atores são contemporâneos nossos, mas também porque já está muito fora de moda duvidar de que o homem foi à Lua. (Se ainda há algum pingo de vontade de abraçar teorias da conspiração, recomendo o curto e ótimo episódio 199 do Nerdologia no YouTube).


Falando em atores, eles são a raiz do segundo problema. Matt Johnson pode ser um bom diretor, mas como ator é só irritante. Os protagonistas eram para ser uma dupla de agentes da CIA infiltrados na NASA se passando por estudantes de cinema. Mas, mesmo fora do disfarce eles parecem o tempo todo ser o que são na vida real: estudantes de cinema. Ninguém ali convence e a jornada parece existir só para se apreciar um bom trabalho amador. Se os realizadores fossem da família, ou amigos íntimos, seria uma experiência excelente, mas a obra exposta para o mundo pouco tem a agregar.

Apesar do roteiro fraco, que para um pseudo-documentário traz pouca lógica e coerência, há o que se apreciar no filme, especialmente nas passagens envolvendo o cineasta Stanley Kubrick à la Forrest Gump. Mas, no fim das contas é somente mesmo uma ótima ideia executada com boas intenções. E sabe o que dizem por aí sobre boas intenções, né?


Operação Avalanche (Operation Avalanche), 2016




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Saul que há de melhor


Continuo sendo o (desacreditado) cara que se diz fã de cinema e que nunca viu Breaking Bad. O problema é que perdi o zeitgeist da série protagonizada pelo famoso Walter White e acabei traçando uma meta: assistir ao seu spin-off, Better Call Saul, só para ver se funcionaria independentemente.

E já no começo da primeira temporada descobri que sim.

Agora, se tudo que foi demonstrado até a conclusão da terceira e mais recente temporada for algum indício, cada vez aumenta mais a sensação de que todo mundo com quem converso está certo e estou perdendo uma das melhores séries de todos os tempos ao evitar Breaking Bad. Porque Better Call Saul, um "mero derivado", já é uma das melhores séries de todos os tempos.


Como escrevi após o quinto episódio ainda da primeira temporada, "o grande trunfo aqui é o desenvolvimento de um personagem agridoce, ambíguo e divertido. Um advogado inteligente, mas que não deixa de fazer bobagens homéricas e que mesmo arquitetando golpes e trambiques ainda tem um senso moral nato, tentando racionalizar seus atos para se convencer de que faz a coisa certa."

Porém, não é só Bob Odenkirk quem brilha como o personagem-título (ou quase lá). Todo o elenco coadjuvante  merece aplausos e, sem entregar muito, os roteiristas dão aos seus personagens dimensões substanciais e verossímeis. De Mike, Kim e Chuck, passando por Howard e Francesca, até Nacho, Hector e Gus, todos protagonizam momentos tensos, engraçados, sensíveis e memoráveis dignos de protagonistas. E os personagens que são recorrentes de Breaking Bad quando roubam a cena não o fazem por serem rostos conhecidos (pois pra mim não são), mas sim por estarem servindo a um enredo engenhoso que se dá o tempo necessário para ser bem desenvolvido. Isso tudo confeccionado com uma fotografia belíssima, uma edição habilidosa e direção(ões) de altíssimo nível. É também notável como que é entregue um conteúdo maduro de qualidade, sem a necessidade de se recorrer a palavrões, nudez, sexo ou violência explícita.

A verdade é que Better Call Saul  me deixa num conflito entre perseverar ou abandonar o experimento social-artístico. O que será que Jimmy McGill aconselharia?


Better Call Saul (3a. temporada), 2017




terça-feira, 8 de agosto de 2017

Só com favas e um bom Chianti


Não que isso faça diferença alguma para ele -ou para o mundo- e nem que isso diminua seu magnífico trabalho, mas... não sei mais o que pensar de Sir. Anthony Hopkins.


Alguns trechos da entrevista que concedeu à revista Preview de Julho/17 (Ed. 94) em ocasião do lançamento do seu filme mais recente... ehrrr... Transformers: O Último Cavaleiro:

(...)

O que o senhor gosta neste filme e nesta franquia?
Eu só gosto de trabalhar. É isso.

Mas esse é o tipo de produção que o atrai?
Não, é apenas um filme bom e divertido que resolvi fazer.

(...)

Acha que tem algum filme que todos deveriam ver?
Oh, Deus, eu não sei. Eu não sei. Eu não tenho nenhum interesse neles, realmente.

O senhor assiste a filmes frequentemente ou séries de TV?
Não.

Mas assiste aos filmes e seriados em que trabalha?
Não. Se eu fiz, está feito e acabou.

Gosta de ir ao cinema?
Não. Só assisto na televisão a clássicos e filmes antigos.

Quem foi o melhor diretor com quem trabalhou?
Acho que Michael Bay é um dos melhores junto com Spielberg e Oliver Stone.

(...)

Ele tem 80 anos de idade, 50 de carreira. Quem sou eu pra pensar qualquer coisa...

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Wolverine cansado (e cansativo)


Quase não assisti a Logan.

Após o fraco X-Men: O Confronto Final ainda arrisquei o péssimo X-Men Origens: Wolverine antes de abandonar os heróis mutantes. Mesmo com as boas recomendações de Primeira Classe e Dias de um Futuro Esquecido, não animei de retomar a franquia. Então surgiu a aclamação de público e crítica a Logan e ficou a sensação de que eu poderia estar perdendo algo especial.

Por ser em teoria um filme solo que não dependia diretamente dos que vieram antes, resolvi assistir. E descobri que não estava perdendo nada especial.


A exemplo do recente e também superestimado Deadpool, a comoção e a expectativa em torno de Logan pareciam se sustentar no fato de que a dobradinha Fox-Marvel estava lançando (mais) um filme de super-herói direcionado para adultos. O problema é que o filme parece fazer questão de usar isso como ferramenta de promoção e não por demanda de desenvolvimento narrativo.  Abrindo de cara com um Wolverine exclamando "f**k" e tendo uma cena em que uma moça gratuitamente mostra seus seios para o herói, o longa parece um amontoado de artifícios para gritar "vejam como sou um filme diferente!".

Se a surpresa da violência exacerbada por um momento traz um senso de "tudo pode acontecer", rapidamente ela se torna previsível virando um "tudo vai acontecer". E a produção se transforma em um exercício de paciência, uma espera pelo esperado.

Hugh Jackman e Patrick Stewart, que não contribuíram com suas declarações de antes do lançamento do filme sobre seus envolvimentos futuros com a franquia, até fazem um bom trabalho,  juntamente com a surpreendente novata Dafne Keen. O diretor James Mangold acerta no clima de faroeste, mas erra ao escancarar suas influências com uma cena em que personagens assistem a Os Brutos Também Amam, que acaba sendo referenciado mais para o final, com pouquíssimo efeito dramático.

Logan poderia até ter sido um filme melhor, se não ficasse ocupado em pontuar que possui crianças assassinas e que Wolverine fala, sim, palavrões e tem o costume de repetidamente usar suas garras para atravessar os crânios dos vilões. De certa forma é um alívio que o filme ganhe classificação de censura como inadequado para menores, não somente pelos motivos óbvios, mas principalmente por seu cenário soturno, onde os X-Men estão mortos (aparentemente por decorrência de uma doença mental do próprio Professor X) e os heróis remanescentes estão decadentes e sequer conseguem salvar e se importar com uma família que os acolhe.

No mundo atual, já suficientemente amargurado, não é nada disso que queremos de um filme de herói.


Logan (Logan),2017




sexta-feira, 28 de julho de 2017

Sem escape


A vinheta que exalta as qualidades e faz a propaganda da única sala IMAX de BH termina com um aviso: “IMAX, não se contente com menos”. Para Dunkirk, o novo filme do diretor-roteirista Christopher Nolan, a afirmação é mais que verdadeira.

Desde a simples primeira cena, com soldados sob uma chuva de folhetos propagandistas, até às últimas e memoráveis imagens, absolutamente tudo no longa-metragem é magnífico de se ver (mesmo que os horrores da II Guerra estejam sendo retratados). A fotografia é simplesmente deslumbrante e a tela gigante coloca o espectador em uma experiência imersiva sem precedentes. A produção de som contribui fortemente e, também, desde o primeiro tiro a plateia já sente o desconforto da guerra, atenuado pela excelente e enervante trilha sonora de Hans Zimmer. Cansaço físico e a sensação de não ter visto um filme, mas sim ter sobrevivido a ele, podem ser reações comuns após o término da projeção.


Quem ficou imaginando “o que diabos Christopher Nolan tem para acrescentar em meio a tantos filmes de II Guerra?” terá a resposta não somente no visual arrebatador, mas também em outra característica do cineasta: a estrutura narrativa não-linear. Três pontos de vista de um mesmo episódio histórico são contados em três passagens de tempo distintas, que acabam se interpondo. Mas, esta edição que é um dos charmes da produção pode também deixar parte dos espectadores um pouco confusos.

É um dos riscos que Nolan assume, em favor de criar praticamente uma sensação em vez de mais uma história básica de batalha campal. Aliás, pode ser apontado que há pouca história no filme e, de fato, o mesmo parece uma longa cena esticada para esmiuçar todos os seus detalhes. O que não o torna menos profundo.

A emoção está à flor da pele e mesmo com poucos diálogos e sem exposição dá para acompanhar e entender as ações e motivações dos personagens. É verdade que leva um tempo para que seja criada uma conexão afetiva com os mesmos, e provavelmente não será possível lembrar seus nomes terminada a sessão, mas no final fica uma ponta de honra de ter lutado junto com eles.

Não que o filme levante a bandeira pró-guerra. O peso da perda é grande, ainda que não haja sanguinolência e desmembramentos como em outras produções. É com sutilezas em determinadas cenas e com grandiosidade hollywoodiana em outras (há tempos que não se empregava 6.000 figurantes como aqui) que Nolan pondera sobre a quantidade de pessoas que não voltam da guerra e pontua que não há covardia nem falta de patriotismo nos que querem fugir da mesma.

Dunkirk já é um novo clássico. E merece ...não... precisa ser visto no cinema, em IMAX. Não tem como se contentar com menos.


Dunkirk (Dunkirk), 2017




quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ali, hein?!


Por um período o diretor Ridley Scott esteve desenvolvendo uma continuação da sua ficção-científica de 2012, Prometheus. Tendo abominado este primeiro filme, fiquei torcendo para que o cineasta abandonasse a ideia e fosse usar seu talento em outras empreitadas. Porém, quando Prometheus 2 virou Alien: Covenant, a coisa mudou de figura. Uma simples troca de título me fez acreditar que haveria uma ‘mudança de espírito’ e meu interesse pelo filme foi de nulo a moderadamente alto. Algo me dizia que Scott poderia voltar às origens do terror da sua obra-prima, Alien - O Oitavo Passageiro, ou até mesmo investir na ação, ponto forte do excelente Aliens - O Resgate, de James Cameron.

E, de fato, Covenant funciona justamente quando emula o original de 1979 e a continuação de 1986. O terror sanguinolento ainda impressiona, mesmo que não haja o mesmo suspense intrínseco à novidade e à surpresa, e a ação empolga, mesmo que seja carregada de computação gráfica e não tenha o mesmo senso de realismo que os efeitos visuais práticos proporcionavam.


Da mesma forma, o longa também é mais fraco quando evoca Prometheus. O alento é que parece que Scott aprendeu a lição e tenta não se prender em responder a todas as perguntas do filme anterior, apenas passa pelas mais necessárias e essenciais para dar sequência à história. Satisfatório para quem é fã das raízes da franquia Alien, decepcionante para os (poucos) que gostaram de Prometheus.

Para não ser totalmente injusto com o filme anterior, vale dizer que vem de herança dele o que tem de melhor neste novo filme: Michael Fassbender, revivendo o robô David (que está ainda mais complexo) e encarnando outro robô, Walter, fisicamente idêntico, mas diferente em vários outros aspectos. Vê-lo(s) em cena é um prazer à parte.

A nova heroína tem a ingrata missão de sair da sombra da Ellen Ripley de Sigourney Weaver. E não obtém sucesso, apesar da boa atuação de Katherine Waterston. O potencial de engajar discussões relevantes que poderiam orbitar o personagem de Billy Crudup é totalmente desperdiçado em um roteiro que se limita a anunciá-lo como "o homem de fé". Não é mistério que o tema principal de Covenant é a relação criador/ criatura, o 'brincar de Deus'.

Ao mesmo tempo em que fica uma curiosidade sobre como tudo isso vai se conectar com a tripulação da Nostromo, resta também a sensação de que gradativamente o charme do Oitavo Passageiro está se perdendo. Algo bem parecido como ver que Darth Vader foi um menino bobinho e um adolescente chatinho antes de sair tocando terror na galáxia.


Alien: Covenant (Alien: Covenant), 2017