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domingo, 13 de novembro de 2016

Capitão Estranho


É comum o sentimento de culpa perante os efeitos colaterais dos progressos da humanidade e é difícil não associá-los à degradação ambiental e à ganância capitalista. Assim, é comum também imaginar que a vida ideal é afastada dos grandes centros, imersa na natureza, fora do contexto da sociedade consumista atual. Capitão Fantástico, filme vencedor de vários festivais - inclusive de direção na mostra paralela de Cannes Un Certain Regard, é mais um a explorar temas semelhantes. A história é centrada em um pai que cria seus seis filhos em uma remota floresta norte americana, sob intensos treinamentos físicos e rigorosos métodos de desenvolvimento intelectual.

Por vezes até lembra Na Natureza Selvagem, mas com um elemento agravante. Enquanto o filme de Sean Penn trazia um jovem capaz (mesmo que ainda imaturo) tomando decisões que afetavam praticamente apenas a sua existência, aqui há um adulto consciente e experiente, tomando decisões por crianças ainda em formação. Claro que não deixa de ser um comentário sobre as dificuldades e responsabilidades de ser pai, mas sua mensagem é preocupante, assim como também é preocupante a aprovação dessa mensagem através da aclamação ao filme por parte da crítica.

O principal problema é que o diretor/ roteirista Matt Ross, tão focado em defender seu ponto de vista, não consegue perceber que criou um personagem hipócrita e detestável (tolerável somente pela impecável atuação de Viggo Mortensen). Ben é um cara que tem aversão a religião, mas cria seus filhos como em uma espécie de seita particular. Recitando palavras do próprio pai, sendo doutrinados nos ideais dele (mesmo que indiretamente, através do acesso restrito a livros selecionados por ele), eles não são em nada diferentes daquela "pastorazinha" que chocou o Brasil no YouTube uns tempos atrás: uma menina que pregava fervorosa e cegamente para fiéis evangélicos e que acabou gerando vasta crítica com alegações de "lavagem cerebral por parte da Igreja". Então doutrinação anti-sistema e anti-religião é totalmente aceitável e até louvável, mas o oposto é execrável?

Matt Ross tenta esconder sua agenda, criando algumas cenas realmente tocantes e mascarando certas passagens com humor, por vezes válido, por vezes de gosto duvidoso. Mas, há claramente uma ênfase nos méritos alcançados pelo pai, afinal as crianças são mais fortes que as de mesma idade, falam seis línguas fluentemente e estão aptas a entrar em qualquer universidade dentre as principais dos Estados Unidos. Enquanto isso, presentear os filhos com armas, ensinar sobre tolerância com exceções bem específicas e arquitetar delitos com eles surgem como alívio cômico, sem o devido peso que existe por trás disso tudo.


E à medida que seu roteiro caminha, as coisas ficam cada vez mais inverossímeis. A jornada da família ao "mundo real" deveria expor as armadilhas da convivência fora da sociedade, e evidenciar suas características de 'bicho-do-mato'. Porém, estranhamente, as crianças conseguem simular uma situação inusitada e socialmente complexa em um supermercado e também se mostram hábeis no improviso, ao serem confrontadas por um policial em um contexto que certamente seria muito mal interpretado pelas autoridades no mundo atual. Também é perturbador quando Ben responde abertamente aos questionamentos da pequena filha sobre sexo, uma cena construída de forma a enaltecer sua característica de não esconder nada dos filhos e de não mentir para eles. Mas, afinal, vivendo isoladamente apenas em família, o que aqueles ensinamentos podem trazer de benefício para a filha? O que será do futuro daquela minúscula "comunidade"? Como ela irá se desenvolver e prosperar? Chega a ser assustador conjecturar o que pode advir daquilo ali.

Talvez Matt Ross nem tenha pensado nas implicações do que está defendendo. Ironicamente, Ben incita seus filhos a questionarem tudo, mas cria um ambiente em que é impossível que eles o questionem, por mais que deixe parecer que a oportunidade existe. Eles não têm outras fontes e outras experiências para tal. Mas, Ben é retratado como a voz da razão e o silêncio dos filhos como uma vitória sua. Assim também é na discussão sobre educação formal que Ben tem com sua irmã. A cena em que ele expõe a falta de conhecimento dos sobrinhos, colegiais, e que em seguida são humilhados por sua filha de 8 anos por saber recitar (como um robô) e formular uma opinião "própria" sobre a Declaração dos Direitos norte-americana, culmina com sua irmã admitindo uma derrota e com uma comemoração entre pai e filha. Ben acaba de ser deplorável com uma família, que os recebeu em casa de braços abertos, mas é condecorado por Matt Ross com uma medalha de excelência.

Aliás, o "outro lado" tem pouca chance no filme: a única alternativa à filosofia de Ben é esta família da irmã, estereotipada e mediana, que inclui um marido boboca e dois filhos que só pensam em videogame. Quando surge o avô, o sogro de Ben, há a esperança de alguém para injetar racionalidade no protagonista e na situação como um todo. Mas, ele é transformado em um vilão, prometendo chamar a polícia e tomar as crianças de Ben na justiça com provas talvez irrefutáveis aos olhares externos, mas sabidamente falsas e duvidosas.

O filme se esforça para retratar as ações de Ben como fruto do amor por seus filhos, como sendo um pai perfeito ao seu próprio modo. Porém, comete falhas muito básicas para estabelecer isto. A própria ida à civilização não acontece para satisfazer o pedido das crianças, mas somente quando Ben, o anti-religião, decide que tem que honrar a qualquer custo o desejo da esposa - desejo este baseado num preceito meramente religioso e espiritual. É uma motivação tão egoísta quanto contraditória. Ao longo de toda projeção, o público é manipulado para torcer por Ben e por um final feliz em família. Mas, com um pouco de discernimento, não há como não ansiar pela libertação daquelas crianças. O desfecho é um sofrível prêmio à persona de Ben, onde fica estabelecido que bastava apenas que ele mudasse algumas coisinhas para que tudo ficasse perfeito.

E os críticos ainda estão rotulando o resultado de "amável", "belo", "tocante" e "engraçado"... Só na superfície. E, ainda assim, talvez.


Capitão Fantástico (Captain Fantastic), 2016

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